Apesar desta sociedade complexa, egoísta e corrompida em que nos afundamos, ainda há pessoas que fomentam, apesar do longo caminho a percorrer, a solidariedade e a partilha dos valores humanistas. São essas que equilibram e fazem contraste com algumas figuras ditas “poderosas”, por aquilo que representam e pelo impacto mediático que têm.
Sim, os “donos da bola”, aqueles que ordenam “guerrilhas” e “conveniências” para assegurar a harmonia do seu salão e da sua confortável cadeira; aqueles que gerem as “quintas”; aqueles que só conseguem pensar nas cores da sua camisola, aqueles que só conseguem ver até ao seu umbigo, e não conseguem entender o que representam para os seus filhos, para toda uma juventude e para toda uma sociedade.
Sérgio Conceição, treinador de futebol de uma das instituições de maior dimensão mundial, teve, no jogo da final da Taça da Liga e durante os dias que se seguiram, uma série de comportamentos deploráveis e, altamente, reprováveis. Obviamente, que não sou ninguém para o “condenar”, no entanto, enquanto agente desportivo, fico muito dececionado com o exemplo e o forte impacto que isto tem, principalmente, nos mais jovens.
A atitude da equipa do FC Porto no final jogo, ao sair do campo no momento da consagração do adversário, o lançamento da medalha para a claque do Sporting por parte do treinador perdedor, lido como uma provocação e o menosprezo pela competição, as declarações no final do jogo, nomeadamente, com a arrogância com que foram proferidas, e as declarações nos dias que se seguiram, não manifestam apenas o “mau perder”, mas acima de tudo uma falta de dignidade e de valores, que tanta falta faz ao nosso desporto.
As pessoas que estão ligadas ao desporto, em geral, mas em face da nossa cultura, ao futebol, em particular, têm que ter a noção que as suas ações poderão ser influenciadoras de outros movimentos e que todas as suas condutas podem produzir determinados efeitos (positivos ou negativos).
Para um treinador, nomeadamente os que têm tempo de antena nos meios de comunicação, não chega ter o coração perto da boca, deve ter a consciência do impacto que poderá ter na educação de milhares de crianças e jovens. Se, Sérgio Conceição, ao atravessar a Ponte do Freixo, abrisse o vidro da sua viatura, lançasse a medalha ao rio Douro, ninguém teria nada com isso, mas não respeitar quem vence e quem luta, como lutaram os seus jogadores, é, digo eu, o expoente da falta de FAIR-PLAY.
O fair-play, sem “tretas”, é aquilo que representa o desporto, o detalhe de um passe, o remate de bicicleta, a história de um clube, a dignidade de cada vitória e derrota, o jogador que luta e teima em não perder a chama de querer ganhar, o jogador que não deixa de fazer “bonito” e não deixa de tentar brilhar, a luta tática perante uma ação de um adversário, ouvir o treinador e conjugar os esforços com o seu parceiro de luta, o saltar e apoiar a sua equipa até ficar rouco, o passar um frio de rachar e ainda assim vestir a camisola e sentir cada remate, cada passe, cada emoção que os jogadores vivem, ficar arrepiado com o golo e dar um abraço à pessoa que está ao lado, quando este acontece: isso é fair-play e isso é o futebol, é o desporto!
Autor: Carlos Dias
Perversõesde não saber perder
DM
1 fevereiro 2019