Este pequeno país do golfo pérsico, com apenas 678Km2, uma população de 1.472.000 pessoas, das quais cerca de 162.000 cristãos, com capital em Manamá, país de que já fala Luís de Camões no canto X, de «Os Lusíadas», estâncias 41 e 102, foi visitado pelo Papa Francisco entre 3 e 5 de Novembro.
Espalhado por várias ilhas, Barém significa «dois mares», com fronteiras marítimas que o separam, a nordeste, do Irão; a leste, do Catar e a sudoeste, da Arábia Saudita, foi dos primeiros a converter-se ao Islão, em 628, durante a vida de Maomé. Após o período de domínio árabe, foi governado pelo império Português de 1521 a 1602. Desde 1783 tem sido governado pela família real Al Khalifa. Tornou-se um protetorado do Reino Unido em 1861. Em 1971 declarou a independência e tornou-se formalmente um Emirado. Em 2002, o país foi declarado uma monarquia constitucional islâmica. Em 2011, houve uma série de protestos, inspirados na primavera árabe, esmagados com a ajuda da Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos.
Em 1932, foi descoberta a sua riqueza em petróleo e isso levou a uma grande emigração, sobretudo de filipinos e indianos do Kerala. Tem um dos melhores índices de desenvolvimento humano e um dos piores no capítulo das liberdades e direitos humanos. É membro das Nações Unidas. Há uma boa coabitação das religiões muçulmana, ortodoxa e cristã.
A relevância que ganhou em termos de diálogo inter-religioso e ecuménico surgiu de um encontro do Grande Imã Al-Azhar com o papa Francisco, encontro de cortesia e protocolar, mas que veio a tornar-se um encontro de amizade, porque, no final da audiência, quando Francisco o acompanhava para a despedida e era hora de almoço, lhe perguntou onde ia almoçar. Embora não compreendendo a resposta que lhe deu, Francisco convidou-o para almoçar juntamente com ele. Sentados à mesa, estavam: o Grande Imã, o seu secretário e dois conselheiros, e o Papa, o seu secretário e o seu conselheiro. E Francisco conta assim como decorreu o encontro: «tomamos o pão, partimo-lo e demo-lo um ao outro, o que é um gesto de amizade. Foi um almoço muito bonito e fraterno. E quase no fim, não sei a quem lhe veio a ideia: ‘porque não fazemos um texto sobre este encontro»? E assim nasceu o ‘Documento de Abu Dhab’i. Puseram-se a trabalhar os dois secretários, trocaram rascunhos várias vezes… E, no fim, aproveitamos o encontro de Abu Dhabi para o publicar. Foi uma coisa de Deus, não se pode compreender de outra maneira, porque nenhum de nós tinha isto antes na cabeça. Surgiu durante um almoço amigável, e isto é uma coisa grande. Depois, continuei a pensar, e o Documento de Abu Dhabi foi a base de Fratelli tutti. E também o que escrevi depois sobre a amizade humana na Fratelli tutti tem a sua base no Documento de Abu Dhabi. Creio que não se pode pensar num caminho assim sem pensar numa especial bênção do Senhor sobre este caminho. Quero dizê-lo por dever der justiça, para que saibais que foi o Senhor que inspirou este caminho. Eu nem sequer sabia como se chamava o Grande Imã, e depois tornamo-nos amigos e fizemos uma coisa como dois amigos. E como amigos conversamos quando nos encontramos. O Documento é actual e estamos a trabalhar para o dar mais a conhecer». (Da resposta do Papa à 2.ª pergunta, a da TV News Arabia, na viagem de regresso a Roma).
Há muito e rico material nas respostas às outras 7 perguntas na viagem de regresso, que ficam para uma nova oportunidade.
A Vatican News também me possibilitou seguir ‘a posteriori’ a eucaristia no estádio. Impossível não cairmos de assombro vendo Francisco em cadeira de rodas, mas sem perder o sorriso e a energia nas palavras e nos gestos. Presidiu quase sempre sentado, iniciando e concluindo a eucaristia, recebendo os dons, fazendo a homilia em espanhol, que era traduzida para inglês, e manifestou, na Audiência Geral do dia 9, quanto o impressionou «a alegria genuína, simples e bela» que os participantes na eucaristia mostravam sentir». A maior parte dos irmãos católicos são trabalhadores emigrados que, longe da casa, encontram as suas raízes no Povo de Deus e a sua família na grande família da Igreja. «É maravilhoso ver estes emigrantes filipinos, indianos e de outros lados, cristãos que se reúnem e se sustentam na fé. E caminham com alegria, certos de que a esperança de Deus não desilude».
O Papa classificou a Eucaristia celebrada de «comovente e festiva». Gostei de ouvir certas partes do Ordinário da Missa: Kyrie, Santus e Agnus Dei cantados em gregoriano. E ainda o famoso hino eucarístico: «Panis angelicus». Os coralistas e toda a assembleia transmitiam uma alegria deveras contagiante. Ouvi e voltei a ouvir, com muito prazer e agrado.
A frase mais emblemática do Papa Francisco nesta viagem é, para mim: «o diálogo é o oxigénio da paz». Sem oxigénio, não há vida; sem diálogo, não há verdadeira paz.
Autor: Carlos Nuno Vaz
Papa Francisco no Barém: diálogo, encontro e caminho
DM
12 novembro 2022