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O evangelista da misericórdia

O facto de ontem ter sido domingo fez passar despercebida a memória litúrgica de S. Lucas, o autor do Terceiro Evangelho, evangelista da misericórdia de Deus e da “mansidão de Cristo” (Dante Alighieri, Divina Comédia), mestre da arte narrativa...

Não sabemos muito a seu respeito, para além daquilo que nos dizem o seu evangelho, os Atos dos Apóstolos (também obra sua) e Paulo que, em Cl 4, 14, lhe chama “caríssimo médico”. Vem daí a ideia de que Lucas seria médico, a que a tradição acrescenta ter sido também pintor. Chega mesmo a afirmar que é obra sua uma pintura de Nossa Senhora que se encontra na Basílica de Santa Maria Maior, em Roma. Com a consciência de que se trata de um romance, a leitura de Taylor Caldwell, Médico de homens e de almas (Lisboa: A esfera dos livros, 2009) ajuda a conhecer melhor esta figura de relevo das origens do cristianismo.

Do ponto de vista literário, impõe-se destacar a qualidade gramatical e estilística dos textos lucanos, tal como o realismo e a beleza das suas narrativas. Não será aí que se apoia a tradição do Lucas pintor? Estou em crer que sim.

Do ponto de vista histórico, são de registar as múltiplas informações acerca do cristianismo primitivo que nos oferece, sobretudo no livro dos Atos dos Apóstolos. Não é por acaso que, numa obra assim intitulada, Daniel Marguerat lhe chama “a primeira história do cristianismo”.

Do ponto de vista teológico, são muitos os aspetos que fazem do evangelho de Lucas uma obra rica, ímpar e inigualável, dotada de um fascínio tão atual quanto intemporal. Limitámo-nos a destacar alguns.

Lucas é o evangelista da infância de Jesus e aquele que mais nos fala de Maria (Lc 1 – 2). Nenhum outro dá tantas informações acerca do nascimento e crescimento de Jesus e da importância de Maria neste processo. De igual modo, é o evangelista das grandes narrativas pascais, onde pontifica o texto de Emaús (24, 13-35), obra prima da literatura de todos os tempos.

É Lucas quem mais valoriza os excluídos da sociedade e da salvação: os pobres (14, 15-24; 16, 19-31; 21, 1-4), as mulheres (7, 36-50; 10, 38-42), os publicanos (5, 27-32; 18, 9-14; 19, 1-10) e os samaritanos (10, 29-37; 17, 11-19). As figuras de segundo plano e os excluídos aparecem de tal forma reabilitados que Lucas bem merece o título de evangelista da universalidade salvífica.

Lucas é também, e sobretudo, o evangelista da misericórdia de Deus, como o demonstram as três parábolas do capítulo 15: a ovelha perdida, a dracma perdida e os dois filhos perdidos ou, como é vulgarmente conhecida, “parábola do filho pródigo”. A esta referência, podemos acrescentar muitos outros textos onde o perdão de Deus é oferecido aos pecadores. Veja-se, a propósito, o livro de F. Ramis Darder, Lucas, evangelista da ternura de Deus (Coimbra: Gráfica de Coimbra, 2004).

Por último, Lucas é o evangelista da oração, como o ilustram o Cântico de Maria (Magnificat), o de Zacarias (Benedictus) e o de Simeão (Nunc dimittis); o texto em que Jesus ensina a rezar (11, 1-4) ou ainda os textos em que ilustra a necessidade e a importância da oração (11, 5-8; 18, 1-14). Ajuda ao aprofundamento do assunto o livr4o de A. Cardoso, A vida faz-se oração. A oração nos escritos de S. Lucas (Coimbra: Gráfica de Coimbra, 1992).

Não tendo sido apóstolo, é uma das figuras maiores do cristianismo das origens e de todos os tempos. Merece, por isso, que lhe façamos referência com a mesma intensidade e ardor com que ele nos ajuda a conhecer, amar e seguir Jesus Cristo, a quem ofereceu o melhor de si e dedicou todo o seu talento literário.


Autor: P. João Alberto Correia
DM

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19 outubro 2020