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O elogio do papel

1. Na era do digital ouso fazer o elogio e a defesa do papel. E a igreja falha no cumprimento da sua missão se o puser de lado. Para mim não se trata de simples opinião: é uma certeza. A comunicação online não substitui a tradicional comunicação em papel. É chique (desculpem-me dizer assim) a comunicação online. Vivemos num tempo em que quase se não escrevem cartas mas enviam mensagens. E quem não possui computador? E quem não maneja as modernas tecnologias? É ignorado? A mensagem cristã não é para chegar a todos? 2. Comunicava-se muito nas igrejas e em grupos que se reuniam. A COVID 19 começou por fechar as igrejas. Depois reabriu-as mas com muitas restrições. Muitas das reuniões em grupo, com a presença física das pessoas, deixaram de se poder realizar. Surgiram as videoconferências. Mas estas, sejamos realistas, são insuficientes. Sem deixar de usar as modernas tecnologias – um avanço da ciência que oferece muitas possibilidades –, a Igreja não deve cruzar os braços. Se quiser comunicar com muitas pessoas lance mão, também, do papel. 3. Temos na nossa Arquidiocese o centenário «Diário do Minho». Quem me conhece sabe o carinho que lhe tenho. Fez-se nele um grande investimento. Não será hora de os responsáveis se sentarem para refletirem sobre o que o jornal é e o que pode e deve ser nestes novos tempos? Décadas atrás havia os semanários, os quinzenários, os boletins paroquiais e interparoquiais. Muitos desapareceram. Outros deixaram a edição em papel. Estou persuadido do quanto seria útil fazer ressurgir muitos dos que pereceram. 4. Defendo a existência de publicações que se comprometam a sério na formação de cidadãos e de cristãos cada vez mais conscientes. Publicações que sejam tecnicamente bem feitas. Fáceis de manusear. Com textos não muito longos. Redigidos numa linguagem correta e acessível ao comum das pessoas. Onde se reflita sobre problemas que preocupam a comunidade em que se inserem, admitindo a possibilidade de para os mesmos poderem surgir diversas soluções. Onde, tendo em vista o bem comum e a defesa da verdade e da justiça, sempre que necessário se chamem as coisas pelo seu nome. Onde, respeitado o direito à privacidade, se alerte para feridas existentes no seio da comunidade. Onde se procure sensibilizar as pessoas no sentido de se comprometerem e participarem, cada uma à sua medida, no bem dessa comunidade. Onde se respeite o direito de discordar mas sem ofender. Relativamente aos boletins paroquiais, que entrem em casa de todas as pessoas que os não recusam, para o que é indispensável que não tenham preço e haja uma boa rede de distribuição. 5. Falei no preço. Como qualquer outra publicação, também esta se não faz nem paga com água benta. Um boletim paroquial tem custos. Como tem custos a atividade evangelizadora e celebrativa da igreja. Sobre isso se devem debruçar os conselhos económico e pastoral. É tudo uma questão de se reconhecer a sua necessidade e as suas vantagens. Que não haja receio de prestar contas, com muita transparência. Será uma forma de sensibilizar as pessoas para que contribuam. Mas um boletim paroquial distribuído por assinatura corre o risco de não chegar à mão de muita gente. 6. Sem menosprezar – muito pelo contrário – o recurso às modernas tecnologias e de reconhecer as vantagens da comunicação online, não deixo de, paralelamente, defender as vantagens da edição em papel. Na manhã do passado dia 05 o Papa Francisco ofereceu a peregrinos e turistas uma edição em papel da encíclica que tinha assinado na véspera e se encontrava online. Se com a Internet se resolve tudo, porque se continuam a editar livros escolares? Não sou moderno? Não pareço deste tempo? Deixá-lo. O que me importa é a eficácia da comunicação. Será este texto manifestação de saudosismo? Escrevo-o convicto de ser ditado pelo mais gritante realismo.
Autor: Silva Araújo
DM

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15 outubro 2020