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Metade da Manta, no Século XXI

Era uma vez um agregado familiar em que as diferentes gerações permaneciam deveras ligadas. “De uma cajadada, tento matar dois coelhos”, diz um pai. “Preocupo-me com o bem-estar dos meus progenitores, cuidando deles; e, ao mesmo tempo, educo os meus filhos, para que eles venham a cuidar de mim quando eu for avô dos filhos deles. (Estou a levantar a ponta… da manta, que ainda está inteira; a história está só a começar.)

Não conheço, não sei, nem quero saber quem são, onde vivem todas e cada uma das pessoas deste clã familiar. Mas “um espírito santo de orelha” veio ter comigo, “caído do céu aos trambolhões, ao falar-me desta família. Não sei, nem quero saber, de quem se trata.

O episódio levou-me, mais uma vez, à história da “Metade da Manta”. Ter-me-á sido contada (por quem? E onde?) quando eu era uma criança com “um palmo” de altura. Na inocência própria da idade, não cuidei de saber se era verdadeira. Dela aponho neste texto um breve resumo.

«Quando os pais eram velhos, assim como os trapos, e já não tinham qualquer préstimo, os filhos iam pô-los no monte, abandonando-os à sua sorte e à espera do seu fim. Deixavam-lhes como único aconchego uma manta para se embrulharem. Até que certo dia houve um pai que, já no monte, pediu ao filho uma faca e com ela cortou a manta ao meio. Embrulhando-se numa das metades, estendeu ao filho a outra, dizendo-lhe: Toma lá esta metade para, quando fores velho, o teu filho te vier abandonar aqui também.»

Moral desta “história”: O filho reconsiderou o seu gesto e não deixou o pai abandonado no monte. Mas… será ela verdadeira? Ou será antes uma lenda, um mito, uma fábula? Qualquer que seja, a sua origem perde-se na bruma do tempo. Tirei da internet a primeira frase de uma versão da «Lenda dos idosos – 1 fev. 2009 No tempo do bisavô do meu tetravô havia uma tradição que dizia que, quando um senhor ficava velho de mais para trabalhar…»

É mais um exemplo, entre muitos outros. Mas, na “selva da sociedade” civilizada!?) em que vivemos, “o trigo não se vê, tapado que anda pelo joio,” Algo (talvez mesmo, muito ou demasiado) vai mal neste planeta em que vivemos. E nem é preciso sair deste país: “qual é o número mínimo de justos necessário para que sejamos poupados?” Não me estarei a afastar do título que encima o artigo.

A história da “Metade da Manta”, em minha opinião, não tem mais do que um sentido de moral(idade). E vem-me à ideia uma frase que, de certa maneira terá esse mesmo sentido:”Se pensas que penso em ti, penso bem que pensas mal: pois nunca em ti pensei. Nem penso pensar em tal”. O “eu” tanto pode ser um partido, como uma pessoa; uma empresa, ou um “ajuntamento com mais do que uma pessoa”. (Ah! Descaí-me para uma das crises académicas, em Coimbra, na segunda metade do século passado. Haviam sido proibidos os ajuntamentos. Caminhava um par de namorados-estudantes a trocar impressões, talvez “digitais”; e eis que ouviu uma voz ordenando: “Vamos a dispersar “. É uma anedota verídica!! Foi-me/nos relatada por “ela”).

Volto à história da manta, para dizer que ela é tecida, entre outros, com os fios da inveja ou do despeito. A ponto de se querer ocupar uma vaga entre o pessoal trabalhador. É “moeda corrente” ouvir colegas mais novos a dizerem para os mais velhos, por vezes antes de este últimos atingirem a idade da aposentação: “Vai-te para a reforma para nos deixares vago o lugar, a nós os mais novos.”

Apetece dizer a esses colegas: «Toma lá metade da “manta” para, quando tiveres a minha idade, os mais novos dessa altura quererem que tu vás para “o monte” da reforma, a fim de lhes dares o lugar. Ou pensas que serás sempre dos mais novos? Mau sinal para ti se não chegares a ser dos mais velhos. A não ser que abandones a profissão antes disso, o que também não será muito bom sinal.»


Autor: Bernardino Luís Costa
DM

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19 novembro 2022