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Mais fácil dar o peixe do que ensinar a pescar

Ora, então, caros leitores, como diria o Francisquinho que homem é de pouca substância intelectual, cá estemos uma vez mais ao remo; e para ficar e durar como o tal detergente das donas de casa doutras eras ou como as pilhas do rádio de qualquer profissional da construção civil que gosta de se aproximar da obra onde labuta.

Pois bem, assim sendo, adiante que se faz tarde e a crónica tem de sair.

Todavia, uma das épocas do ano para apalpar o pulso (nada de confusões ou mal-entendidos) ao país real que somos é, indubitavelmente, o verão e em todos os ângulos e dimensões: familiar, económica, cultural, moral e... fiscal; e à evidente conclusão chegamos de que o país está a ficar fisicamente gordo, obeso mesmo, bastando ver as barriguinhas que por aí se esparralharam ao sol das praias, se esticaram muitas vezes sobre a sombra de um chaparro ou carvalho, curtindo uma boa soneca e acicatando-se de formigas, se exibiram por esplanadas em renhidos torneios de sueca ou bisca lambida.

E a ilação que daqui retiramos é só uma: não servimos de espelho para ninguém, mas quando muito de simples capacho e, não fora o esforço gigante que muitas madames fizeram para abater os pneus em ginásios e clubes de dança antes de vestirem o biquíni, não serviríamos para nada; claro que a justificação desta situação está no facto de se ter demasiado consignado e elevado a propensão para o consumismo em detrimento do gosto e apego aos bens e benefícios culturais e patrimoniais e, porque não, a uma dietinha, de quando em vez, de legumes e grelhados.

E, assim sendo, o que acontece? Simplesmente uma aculturação apressada, desconexa, a metro, não se chegando a mastigar bem e como tal não se digerindo também convenientemente; conclusão óbvia: uma enorme congestão, seguida do inevitável alívio intestinal.

Vejamos, por exemplo, um caso concreto: hoje a maioria das pessoas tem acesso fácil ao automóvel; depois, dentro dele, incham por todos os lados e ângulos como a rã da fábula até rebentarem em ditos e feitos de autênticos cascas grossas; buzinadelas à toa, gestos impróprios, linguagem soez... como se agarrados à rosca e montados nas quatro rodas deixassem de ser quem são e aparecessem encadernados de uma coisa qualquer e muito menos daquilo que realmente deviam ser.

Ou de outro ângulo, uma pessoa fica cheia de carcanhol em pouco tempo e vira capitalista com acesso a grande bólide, luzida vivenda, inefável amante...; e não imagina as cenas que faz nos restaurantes caros, nas boutiques da moda, nos salões de beleza; e isto é como pegar num chimpanzé, vestir-lhe um bom fato, arranjar-lhe as unhas e o cabelo e pô-lo à mesa de um restaurante três estrelas Michelin, à espera que não coma à mão nem dê uma boa espreguiçadela ou uma sessão de arrotos no final do repasto e guinchando como estivesse no respetivo galho.

Ora, caros leitores, esta é uma questão da necessária aprendizagem e criação de atitudes, critérios, mentalidades e valores que são a base do desenvolvimento pessoal e social que nos chega através da educação, primeiramente colhida em família e na escola e, depois, alargada e solidificada em sociedade; e que tem tudo a ver com a dimensão e realidade pluridimensional do homem e da sua intrínseca condição de animal social.

Agora, não há dúvida de que é mais fácil dar o peixe do que ensinar a pescar o que na prática corresponde, por exemplo, a dar o automóvel sem exigir aprendizagem de condução; até porque, assim, ganha-se mais em termos políticos, garantindo-se vitórias fáceis nas urnas e acessos rápidos ao poder.

Porque, em termos práticos, nisto de dar cultura é mais fácil de um toco de vassoura fazer um intelectual, do que de um intelectual fazer um toco de vassoura, obviamente na dança e roda dos paradoxos; até como dizia o Francisquinho dono de uma filosofia de vida muito prática e caseira: cultura, cultura só se for do tomate ou batata, cuja produção é, em pouco tempo, abundante e dá lucro garantido

E, agora acrescento eu que nisto de ensinar a pescar em vez de dar o peixe só mesmo para os chineses que donos são de imensa sabedoria e paciência, porque se estivessem como nós atormentados por tamanha crise social e económica, nem com a cultura do tomate ou da batata ganho e lucro rápido e fácil se granjeia.

Então, até de hoje a oito


Autor: Dinis Salgado
DM

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30 novembro 2022