Graças à minha condição de idoso e reformado tenho por gosto e hábito, sempre que as condições atmosféricas o permitem, repousar por alguns instantes num dos bancos de pedra do encantador Jardim de Santa Bárbara. Ali, a receber os raios solares e a sua propriedade vitamínica ‘D’ e rodeado da encantadora beleza, desta inestimável arte botânica, vou ouvindo e vendo muita coisa. Mas, o que muito me consola é algum amor e carinho que as distintas edilidades, de outrora e a de hoje, lhe têm dedicado no sentido da sua preservação, diversidade e melhoria estética.
De facto, fico sempre maravilhado. E sinto um enorme orgulho, quando assisto à avidez com que as pessoas em visita a esta Cidade dos Arcebispos disparam os seus telemóveis e kodakes, na procura de levarem com elas “instantâneos” floridos dos melhores ângulos e, até, de uma só flor que acharam mais interessante. É um gosto ver sorrisos estampados nos rostos e escutar, nas mais variadas línguas, os encómios tecidos àquela joia ajardinada desta nossa encantadora Bracara Augusta. Alguns dos quais não sei traduzir, mas que pelos olhares e expressões faciais dos visitantes só podem ser de admiração.
Neste radioso ex-líbris bracarense, onde inúmeros pares de namorados arrulham com promessas de amor eterno selando-o, por vezes, com uma singela rosa – como que a dizer que na vida também há espinhos – tenho observado as mais variadas atitudes do pessoal que ali chega. Mormente, a de alguns jovens progenitores que nem sempre se comportam como tal, deixando que os seus filhotes façam do local um mero espaço de recreio. Não lhes ensinando as regras básicas comportamentais (como a de contrariar certos ímpetos infantis), isto é, demitindo-se do dever de educar, deixando-os à rédea solta em correrias e atropelos por cima do que tanto custa a preservar. E se é isso o que hoje se chama educação para a cidadania, eu já vos conto!
“Mas que coisa linda!”. - Dizem alguns. – “Que colorido fantástico!”. – exclamam outros, enquanto os mais afoitos, sobretudo as senhoras, não resistem em segurar uma flor pelo caule e cheirá-la, exclamando: – “hum… que cheirinho bom!”. Quase tentadas a colher uma delas para seu prazer e companhia, porém, resistindo em não o fazer. No entanto, há sempre quem por vezes o faça e, ao que tenho presenciado, são quase sempre os ‘lusos’ a fazê-lo, talvez para assearem a imagem religiosa lá de casa. O que de pouco valerá se o gesto não for proveniente das suas economias e esforço pessoal, em vez de resultante do furto.
Ora, num destes dias um casal surpreendeu-me – ele de cabelos grisalhos e ela com uma ou outra ruga no rosto – ao proporcionar-me um aprazível momento. Assim, logo que entraram no Jardim pela rua Justino Cruz, apercebi-me de que se faziam acompanhar de um miúdo, aí dos seus 3 ou 4 anos, que logo correu para as flores na intenção de arrancar uma delas. Tocou-a com a mãozita e olhou para o avô, no intuito de obter a sua aprovação: – “vou tirá-la” – ameaçou. O avô nada falou, mas o seu olhar sério e o seu rodar com a cabeça, de que não o deveria fazer, deixou o rapaz paralisado, largando-a de imediato.
Por sua vez, a avó segurou a mão do catraio, algo amuado, inclinou-se para ele e disse-lhe com toda a ternura: – “olha que não se devem arrancar as flores dos jardins públicos”. Ao que o miúdo atirou: – “mas era só uma avó!”. – “Mesmo assim” – disse-lhe ela. – “Imagina se os muitos milhares de crianças que por aqui passam arrancassem uma flor. Neste momento não verias aqui nada, achavas bonito? E o pior de tudo é que não só perderia a natureza como a cidade, já que a coisa pública é um bem a ser respeitado por todos nós, cidadãos, sem exceção, percebes?”. Os olhitos do gaiato abriram-se como que em sinal de entendimento.
Pois bem, é de singelas e oportunas aulas deste calibre pedagógico como a aqui descrita, ainda que ao ar livre, de que o nosso país carece como de pão para a boca. Oh, se precisa!
Obs. Sugiro cinzeiros junto aos bancos. As beatas, ali, mancham o jardim.
Autor: Narciso Mendes