Estão profusamente retratados, da Idade média até ao século XVI, na envolvência das mesas de refeição que reúnem os convivas da nobreza ou de outros grupos abastados. Até então, a “arte de comer” na Europa era muito primitiva. Nas mesas eram colocadas travessas comuns, de onde os comensais ou convivas tiravam à mão as porções de carne ou peixe, designadamente, que pretendiam comer. Um “trencher”, ou seja, um pedaço de pão duro e seco com forma arredondada ou quadrada, servia, por regra, de base individual para cada um colocar as porções de alimentos sólidos que retirava de travessas comuns, enquanto também absorvia as gorduras ou molhos que envolviam essas porções. Os cães, de raça aprimorada (galgos e outros) representados nas pinturas da época, para lá do estatuto que podiam conferir ao proprietário, e além de simbolizarem a fidelidade que muitos humanos não garantiriam, serviam para comer os restos dos alimentos que eram lançados para o chão durante o banquete (ossos, espinhas, cartilagens, migalhas) e, claro, no final comeriam o “trencher” (prato-pão; pão de cortar), se este não fosse “magnanimamente” oferecido aos pobres famintos que buscavam a sorte no exterior da casa senhorial.
Quando os portugueses chegam ao Japão, no século XVI, impressionam pela espingarda que usam, por lá desconhecida, mas também pela grosseria que exibiam durante as refeições, manipulando os alimentos à mão. Paulatinamente, todavia, sobretudo a partir do século XVII, os pratos individuais e os talheres ganhariam um “lugar à mesa”, por cá como pela Europa.
Como última nota histórica, de outro teor e mais circunscrita, lembraria que por 1900 na cidade de Braga os surtos de raiva que atingiam os muitos cães vadios preocupavam as autoridades sanitárias e os serviços camarários, provocando mesmo a morte de diversas pessoas (a vacina contra a raiva, que Louis Pasteur criara em 1885, ainda não estava suficientemente difundida).
Hoje, nesta terceira década do século XXI, o cão beneficia de um “estatuto” genericamente aprimorado e privilegiado.
O cão continua a assumir a função de guarda e a ser um auxiliar na caça, uma atividade que em Portugal vai congregando um número decrescente de adeptos. Mas hoje o cão serve, primacialmente, de companhia para crianças e muitos adultos, assim menos solitários. Nos orçamentos mensais de muitas famílias, entre as despesas obrigatórias, o cão preenche uma rubrica não negligenciável (alimentação, visitas regulares ao veterinário, para as vacinas e doenças que surgem, e ainda, nos primeiros tempos, a “escola canina”). Depois, ora mais ora menos, o tratador habitual tem de fazer a rota diária do cão, particularmente se não dispõe de um terreno generoso anexo à sua habitação. E nestas investidas regulares os passeadores do animal vão “falando com o bicho” e, de permeio, socializam com outros humanos passeantes, num convívio forçado pelo cão, que tendencialmente não resiste a tentar a aproximação a qualquer outro canídeo que com ele se cruze.
Vivemos, em Portugal como em todo o mundo desenvolvido, uma verdadeira crise demográfica, mediante uma paisagem humana em que, lamentavelmente, as crianças tendem a resvalar para o estatuto de raridade. Em contraponto, no nosso país a adoção de cães como animais de estimação tem exibido uma curva ascendente.
Socorrendo-me de vários sites a net, retenho que mais de metade dos lares portugueses têm um cão, sendo Portugal o segundo país da UE com maior percentagem de canídeos por habitante (27 cães por cada 100 habitantes). Claro, depois há os muitos lares que têm no gato o seu animal de companhia, mas este não propicia as extensões de sociabilidade alimentadas ou forçadas pelo cão. Ah, fica a inevitável confissão: eu, de há uns anos a esta parte, também possuo um cão.
Devemos tratar bem os animais de companhia. E o estatuto do cão de companhia está hoje revalorizado, não raro hipervalorizado quando alguns donos quase os humanizam (e a moda, relativamente recente, de atribuir aos cães antropónimos será também, porventura, um indicador subconsciente desse facto).
Nesta era digital, num tempo de facilidades de comunicação (telemóveis) e de conexões virtuais (redes sociais), entre humanos com laços reais enfraquecidos, o cão, de carne e osso, ganhou um papel renovado.
* Doutorado em História Contemporânea pela Universidade de Coimbra