"No meu primeiro livro – Sapiens –, investigo o passado humano, examinando como um macaco insignificante dominou a Terra. Homo Deus, o meu segundo livro, explorou o futuro da vida a longo prazo, contemplando como os humanos finalmente se tornarão deuses, e qual pode ser o destino final da inteligência e da consciência" – afirmou, em entrevista, Yuval Noah Harari.
1. Como notei no artigo anterior, Harari compraz-se em afirmar que a ciência moderna finalmente demonstra que as noções de livre arbítrio e de pessoa são pura ficção. Ora, não é preciso ser mui versado em história da filosofia para constatar que a controvérsia determinismo-liberdade remonta à filosofia antiga, e que filósofos como Marco Aurélio, Espinosa ou Nietzsche – só para referir três – não aguardaram pelos êxitos da biologia e da informática para tomar parte na discussão, tornando claro que esse debate é insolúvel, que a ciência não solucionará, já que é metafísico e não empírico – como aliás Kant e Popper mostraram à saciedade.
O mesmo se diga sobre o problema da alma, que em Homo Deus é amplamente dissecado: ora, alega Yuval, os pesquisadores não a encontraram por entre os recantos e fissuras do coração e do cérebro humanos. Valha-nos que reconhece: "para ser franco, a ciência sabe surpreendentemente pouco sobre mentes e consciência"; e continua: "A ortodoxia actual sustenta que a consciência é criada por reacções electroquímicas no cérebro e que as experiências mentais realizam alguma função essencial de processamento de dados. No entanto, ninguém tem a menor ideia de como um amontoado de reacções bioquímicas e correntes eléctricas no cérebro criam a experiência subjectiva".
2. Para Harari, o mundo que aí vem, potencializado pela inteligência artificial, inaugurará a era do “dataísmo”, isto é, uma nova ideologia, ou até religião, em que os fluxos de algoritmos serão o “valor supremo”. Que o poder que outrora era atributo divino, e agora é humano, tornar-se-á divino, é uma tese já antes reiterada – em especial no século XIX –, mas agora com a nova roupagem dos diversos modos de processamento de fluxos de dados, algoritmos não conscientes; estes, conhecendo-nos melhor do que nos conhecemos, paulatinamente corroerão a liberdade. Se o autor sustém que a inteligência artificial poderá vir a ser mais eficiente, no diagnóstico e na terapia, que o melhor cirurgião, todavia ainda me pertence a mim a iniciativa e escolha do médico e, com ele, aferir da eficiência da inteligência artificial.
3. Segundo Luc Ferry, filósofo francês (foi Ministro da Educação, 2002-2004) – escreveu o livro O Homem-Deus ou o sentido da vida (1996) –, afirma que Harari, em Homo Deus: uma breve história do futuro, retoma afinal a famosa tese de Auguste Comte (séc. XIX), segundo a qual a humanidade passou por “três estados” – teológico, metafísico e "positivo" (científico) –, agora adaptada aos avanços da biologia, informática e inteligência artificial, mas, na essência, sustendo posições coetâneas; segundo Harari, tal como antes, com os algoritmos electrónicos, o homem foi destronado, hoje, com os biológicos, sê-lo-á Deus; os humanos poderão vencer a morte e fruir uma eterna juventude; após um longo processo, os homens serão como deuses.
Como adverte Luc Ferry numa obra exigente e pedagógica, A Revolução trans-humanista, não se conclua que a questão é menor, pois "não se pode compreender nada actualmente, passando ao lado das revoluções tecnológicas". Mais para adiante, poderemos voltar ao tema – também conhecido por “A singularidade tecnológica”.
4. Como salientámos no artigo anterior, a obra de Harari é uma aventura do pensamento, pela riqueza de detalhes e qualidade de informação, o que já não é pouco, embora irrite o abuso de certos termos altissonantes (exs., genes, algoritmos), a abundância de pontos de interrogação, conclusões que não estão nas premissas.
Se retoma ou não o positivismo de Comte à moda de hoje, é Orwell no cenário de “Silicon Valley” que Yuval nos oferece. No final do livro, Harari confidencia algo de estranho: "Expandir os nossos horizontes pode voltar-se contra nós, confundindo e tornando-nos mais passivos que antes". E já avançado no livro, adverte: "Se não tivermos cuidado, podemos acabar num Estado policial à maneira de Orwell que vigia constantemente e controla não apenas as nossas acções, mas até mesmo tudo aquilo que acontece nos nossos corpos e o que está dentro das nossas cabeças. Basta pensar no que Estaline faria com sensores biométricos omnipresentes – e naquilo que Putin ainda poderá fazer".
Também no novo livro 21 Lições para o Século XXI (2018) alerta que "os algoritmos da big data podem criar ditaduras digitais". E termina a introdução com uma confissão e mais um alerta: "Só foi possível escrever este livro porque as pessoas ainda são relativamente livres de pensar e de se exprimir. Mas está a tornar-se cada vez mais difícil reflectir criticamente sobre o futuro da nossa espécie".
O autor não segue o denominado acordo ortográfico
Autor: Acílio Estanqueiro Rocha