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Gratidão a quem (nos) ajuda a sofrer

  1. Para quem crê, «a morte não é nada». Como sondou o grande Santo Agostinho, na morte «passamos para o outro lado».
Aos olhos dos vivos, os mortos continuarão a ser o que sempre foram: pai, mãe, irmão, amigo…
  1. A morte «desfeiteia» um percurso e acaba por «doestar» sonhos e projectos. Mas não «deslaça» o que a vida «enlaçou».
É por isso que – inspirando-nos de novo em Santo Agostinho – damos por nós a «falar» com os que partiram. É por isso que pronunciamos o seu nome como sempre, «sem traço algum de sombra».
  1. Uma vez que «o fio não foi cortado», porque «haveria de estar «fora do nosso pensamento quem está apenas fora da nossa vista?»
No fundo, quem partiu «não está longe». Com quem partiu temos de «seguir em frente», procurando que a vida «continue linda e bela, como sempre foi».
  1. Acontece que quem crê também é humano.
E sabendo o que se sabe pela fé não deixamos de sentir o que sentimos pela natureza.
  1. Dói muito não ver quem se via, não ouvir a quem se ouvia, não abraçar quem se abraçava.
Reorganizar a vida sem a presença de quem sempre inspirou a nossa vida não é tarefa fácil, embora possa não ser missão impossível.
  1. É certo que as pessoas, que podem ser supridas no que fazem, jamais serão substituídas no que são.
Pai e Mãe serão sempre Pai e Mãe mesmo depois de a morte os levar.
  1. Mas há «cireneus» com coração «samaritano», que nos abrem as portas de casa e nos reabrem as janelas para a vida.
São eles que colhem as lágrimas que caem e amenizam as dores que não param de doer.
  1. Os «com-sofredores» – que nos acompanham nas horas de tormenta e não nos julgam pelos nossos tropeções – são a «mais-valia» de maior valor.
Aqueles que não se ausentam – quando até nenhuma obrigação teriam de estar presentes – ajudam a suportar o que, em si mesmo, parece insuportável.
  1. E, depois, há que aprender o que temos cada vez maior dificuldade em aceitar. Que o percurso na terra não é ilimitado.
Há, portanto, que saber viver e também envelhecer. Aliás, Montaigne até notou que «os anos que vão declinando estão entre os mais belos da vida».
  1. Feliz, então, de quem consegue envelhecer. E mais feliz de quem sabe envelhecer. Envelhecer não é para todos. E saber envelhecer também não parece ser para muitos.
Todavia, não desesperemos. Chorando a partida dos que nos precedem na morte, conforta-nos descortinar que, afinal, estamos cada vez mais perto de os reencontrar. Para sempre!
Autor: Pe. João António Pinheiro Teixeira
DM

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1 novembro 2022