É este o pensamento central da primeira pregação de Advento 2022, do cardeal Cantalamessa ao Papa e à Cúria.
Comentando o salmo 24, 7-8 e citando santo Ambrósio, afirma que a porta do nosso coração é a fé. «Se quiseres levantar as portas da tua fé, entrará em ti o rei da glória».
A grande porta que o homem pode abrir ou fechar a Cristo é a liberdade. E a liberdade abre-se segundo 3 modalidades ou três tipos de decisões que podemos considerar como outras tantas portas: a fé, a esperança e a caridade. E são portas muito especiais, pois se abrem por dentro e por fora ao mesmo tempo: com duas chaves, uma, nas mãos do homem, e outra, nas mãos de Deus. O homem não pode abrir sem o concurso de Deus, e Deus não quer abrir sem o concurso do homem.
Detenhamo-nos na porta da fé, que é Cristo, origem pleno cumprimento.
Com a vinda de Cristo, há um salto qualitativo na percepção da fé: já não se trata de uma fé genérica em Deus, mas da fé em Cristo nascido, morto e ressuscitado por nós. Hb 12, 2 diz isso: «… com os olhos fixos em Jesus, que inicia e leva à perfeição a fé». A fé cristã não consiste apenas em crer em Deus; consiste em crer também naquele que Deus mandou. E são Gregório Magno acrescenta que se não chega à fé, partindo das virtudes, mas às virtudes, partindo da fé. E que acontece com os que não crêem em Cristo? Com a declaração «Nostra aetate» do Vaticano II já não afirmamos que «fora da Igreja não há salvação». Mesmo fora da Igreja, as pessoas podem salvar-se. Jo 4, 42 afirma que «Jesus é o salvador do mundo»; mais: «O Pai mandou o Filho para que o mundo seja salvo por meio dele» (Jo 3,17).
Na própria Escritura, encontramos resposta. Ela afirma que quem não conheceu Cristo, mas age com base na própria consciência (Rm 2, 14-15) e faz o bem ao próximo (Mt 25, 3 ss) é aceite por Deus. Pedro dá-se conta de que Deus não faz distinção de pessoas, mas acolhe quem O teme e pratica a justiça, pertença a que nação pertencer. (Act 10, 34-35) A Oração eucarística IV, depois de pedir pelo papa, bispos e fiéis, acrescenta: por todos os homens que te procuram de coração sincero. Deus tem muitas maneiras de nos salvar, mais de quantas nós possamos imaginar. Um dos meios extraordinários é através do sofrimento. Depois que Cristo suportou o sofrimento e o redimiu, também ele, à sua maneira, é um sacramento universal de salvação.
Todo sofrimento, misteriosamente, leva a cumprimento o que falta à paixão de Cristo. (Cf. Col 1, 24). Aliás, a Igreja celebra a festa dos Santos Inocentes, embora eles não soubessem que estavam a sofrer por Cristo. Nós acreditamos que todos os que se salvam, são salvos pelos méritos de Cristo. Mas uma coisa é afirmar a necessidade universal de Cristo para a salvação, e outra coisa é afirmar a universal necessidade da fé em Cristo para a salvação. Isto não nos dispensa de continuar a anunciar o Evangelho, não tanto por um motivo negativo – porque, de outra maneira, é-se condenado -, mas por um motivo positivo: pelo dom infinito que Jesus representa para todo o ser humano. O diálogo inter-religioso não se opõe à evangelização, mas determina o estilo.
O mandato de Cristo: «Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a todas as criaturas» (Mc 16, 15) e «Fazei discípulos de todos os povos» (Mt 28,19) conserva a sua perene validade, mas deve ser compreendido no seu contexto histórico. A mensagem era dirigida, não apenas a Israel, mas a todo o resto do mundo. São sempre válidas para todos, mas, para quem já pertence a uma religião, deve ser respeitado com paciência e amor.
O maior desafio à fé já não vem, hoje, da filosofia, mas da ciência. Apesar de todos os avanços da ciência, sabemos que é a qualidade do ser e não a quantidade quem decide. E a qualidade do «criado» é de ser… criado! Milhões de galáxias, distantes milhões de anos luz, não mudam esta qualidade. Pelo que o maior acto de fé, para nós, cristãos, não é acreditar que tudo isto foi criado por Deus, mas acreditar que «todas as coisas foram criadas por meio de Cristo e para Cristo» (Col 1, 16); «sem Ele, nada foi feito do que existe» (Jo 1, 3).
Partilhamos com todos o desconcerto perante tantos mistérios e contradições do universo: da evolução natural, da história, da Bíblia… Mas podemos superar este desconcerto com uma certeza mais forte que todas as incertezas: a credibilidade da pessoa de Cristo, da sua vida e da sua palavra. A plena e gozosa certeza não se tem antes, mas depois de acreditar. Se assim não fosse, a fé perderia o seu valor e o seu mérito.
Deus não desfaz o enigma da história, mas pede que nos fiemos dele e da sua justiça. A solução não está na cessação da provação, mas no aumento da fé. Só sucumbe ao pessimismo e se escandaliza quem não tem o coração radicado em Deus. A fé é a arma da Igreja. Roma não é a capital do mundo, mas a capital da fé, não só da ortodoxia da fé, mas também da intensidade e radicalidade do crer. Deus jamais se afasta para fazer cair no vazio quem se lança nos seus braços.
Autor: Carlos Nuno Vaz
Fé, esperança e caridade são o ouro, incenso e mirra dos Magos de hoje
DM
10 dezembro 2022