twitter

Fariseus, saduceus e publicanos

Eram diversos os grupos religiosos e/ou políticos, em Israel, ao tempo de Jesus: fariseus, saduceus, escribas, essénios (Qumran), zelotas, samaritanos, batistas, apocalíticos e místicos. De entre estes, os evangelhos dão um particular relevo aos fariseus e saduceus. Também falam, com frequência, de um outro grupo que, não sendo de índole religiosa, é posto de parte por todos e, sobretudo, pelos fariseus e saduceus: os publicanos. São estes três que passamos a apresentar, no intuito de contribuir para uma melhor compreensão dos evangelhos.

Os fariseus (a palavra significa “separados”) surgiram do grupo religioso hassidim (os piedosos) que apoiou a revolta dos macabeus (168-142 a. C.) contra Antíoco IV Epífanes, rei do Império Selêucida. Parece que a decisão de juntar na mesma pessoa o Rei e o Sumo Sacerdote, por parte de Simão Macabeu e Alexandre Janeu, terá contribuído para o aparecimento deste e de outros grupos.

Recrutados de todas as classes sociais, os fariseus eram fiéis observantes e defensores da Torah de Moisés (os primeiros cinco livros da Escritura), assim como das tradições dos antepassados (lei oral). Foram eles os criadores da sinagoga e arvoravam-se em diretores da consciência moral e religiosa da gente simples e humilde, que os amava e admirava. Com o tempo, tornaram-se uma espécie de seita, radical e fundamentalista, que criticava a aristocracia judaica, afirmava a existência de anjos e admitia a ressurreição dos mortos.

Das controvérsias entre eles e Jesus, que os evangelhos bem documentam, transparece a ideia de que eram hipócritas e guias cegos, exibicionistas e presunçosos, que julgavam os outros e se consideravam superiores a eles (Mt 6, 1-17; 23, 1-33; Lc 18, 11-12). Não admira, por isso, que, nos textos agora citados, Jesus os critique duramente.

Com a destruição do Templo de Jerusalém, pelos romanos, no ano 70, e a queda do poder dos saduceus, cresceu a sua influência no seio da comunidade judaica, transformando-se nos percursores do judaísmo rabínico. Foram eles que, nos inícios da década de 80 da era cristã, decidiram expulsar da sinagoga os seguidores de Jesus Cristo, ao introduzir na oração das Dezoito Bênçãos a maldição dos hereges.

Os saduceus eram um grupo ou partido, cujo nome provém de Sadoc, sacerdote fiel a Salomão, que lhe atribuiu a responsabilidade do sacerdócio, no Templo de Jerusalém, em substituição de Abiatar. O grupo surge na mesma altura e pelas mesmas razões que surgiram os fariseus, com quem inicialmente se deram bem. Era constituído por homens recrutados entre a classe sacerdotal e a nobreza laica. Controlavam o que acontecia no Templo (tinham muita influência religiosa), estavam bem representados no Sinédrio e mantinham boas relações com o poder político, o que lhes permitia ter também muita influência política.

Os saduceus admitem apenas a autoridade divina da Torah de Moisés, “negam a ressurreição, assim como a existência dos anjos e dos espíritos” (At 23, 8) e defendem um tradicionalismo político e religioso. Foram eles quem entregou Jesus a Pilatos, para ser morto, por motivos políticos e religiosos (Jo 19, 15).

Os publicanos eram cobradores de impostos, mal vistos e até excluídos por causa da sua profissão (nunca ninguém gostou de pagar impostos!), por serem colaboracionistas com o Império Romano e por se aproveitarem da situação. Eram conhecidos como ladrões, avarentos e sem coração e, por isso, equiparados aos pecadores públicos. Comer com eles à mesa era participar da sua impureza. As duas figuras mais conhecidas de entre eles são Mateus, que se tornou apóstolo (Mt 10, 2-3), e Zaqueu, chefe de publicanos que se converteu (Lc 19, 1-10).

Jesus gosta de lidar com eles, mesmo debaixo de um coro de críticas (Lc 5, 30; 19, 7), porque entende que ninguém deve ser excluído da salvação. Come com eles à mesa e afirma literalmente: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas os que estão doentes. Não foram os justos que eu vim chamar ao arrependimento, mas os pecadores” (Lc 5, 31-32). Assim se compreende que, quando o cobrador de impostos reza no templo, de forma discreta e humilde, confessando o seu pecado, volte para casa justificado, ao contrário do fariseu que, na sua arrogância e presunção, se julgava melhor do que todos e fiel observante da Lei (Lc 18, 12-13). Não admira, portanto, que Jesus sentencie a questão deste modo: “quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado” (Lc 18, 14).


Autor: P. João Alberto Correia
DM

DM

31 outubro 2022