Os dicionários atribuem-lhe não só a primazia verbal transitiva como pronominal, mas na sua essência, o conceito de Comportamento releva-nos para a sua dimensão social onde cabem todas as outras interpretações, provenham elas de condutas involuntárias ou conscientes. O behaviorismo explica-nos muito das derivações deste estado ativo entre nós, humanos, mas não explica tudo, quando as interações sociais se tornam complexas e interdependentes. O período que vivemos é particularmente reflexo do que é designado como “libertação de emoção” (dic. Priberam) e só assim se compreende a catarse coletiva que não nos empurra apenas para a “purificação”, como a referenciou o filosofo grego, Aristóteles que a interpretou como a forma “sentida pelos espectadores durante e após uma representação dramática”, mas para um estado de ansiedade permanente que nos conduz a atitudes irrefletidas, quase suicidas. Somos confrontados coletivamente pelo poder absoluto da Natureza que transformou em poucos meses o conceito de imunidade à catástrofe, em inevitabilidade e fragilidade pessoal e coletiva.
Apesar de o Conhecimento ser a peça chave para que cada um possa entender e responder aos desafios de um vírus, tudo se torna mais pequeno e volátil, pela dimensão trágica que acarreta, o que nos conduz necessariamente ao Comportamento pessoal, perante a iminência de um desastre político, social, económico e acrescentaria, Moral.
Para quem segue estas crónicas, sabe como tem sido dado destaque à urgência da Mudança, à necessária transformação da letargia em Ação proativa, a favor de uma consciência crítica individual perante a sociedade. E se neste capítulo, se pode reconhecer avanços, no que à consciência política diz respeito, estamos a anos-luz de uma atitude “disciplinada” perante o perigo de proximidade do abismo. Seja na classe política, pelos efeitos mediáticos, seja no campo económico, pela pressão exercida sobre o consumo, seja no campo cultural, pela sua ausência próxima, a tendência é nos transformarmos em falsos heróis, ou em profetas da desgraça. E, no entanto, nem uns nem outros estão corretos pela simples razão que o Comportamento é uma arma de dois gumes que tanto dá para assumirmos atitudes irresponsáveis, como nos conduz para a resignação. Vivemos em estado de exceção moral, correndo o risco de não reagirmos de forma inteligente aos desafios coletivos. O que se passa neste momento em Portugal, em particular, mostra com é fácil descarrilar ao som das influências nefastas que são exercidas sobre os cidadãos que ora se confrontam com soluções eminentes, milagrosas e logo de seguida, se prontificam a violar o dever de responsabilidade, perante os outros. Com máscara, com aplicações ou sem elas, com isolamento, ou sem ele, com cautela ou na sua ausência, o Comportamento é transversal a este jogo de empurra sobre as expectativas que nos deixa desprotegidos. No regresso a uma iminente distorção social, em que todos pagamos pela atitude individual de cada um, só há um caminho possível: a transformação cultural do espaço pessoal e da sua relação com os eufemismos que tendem a disfarçar a realidade desagradável, substituindo-a por um modo suave de encarar a verdade dos factos. E o que esta nos diz é que vivemos em estado de exceção e assim sendo, não basta estar informado, ser conhecedor, é preciso mudar o Comportamento em nome da sobrevivência do nosso modus Vivendi. Nunca na história mais recente, a palavra Mudança fez tanto sentido: a palavra Sustentabilidade passou a ocupar o léxico quotidiano e a responsabilidade alternativa tornou-se uma obrigação. Não basta afirmar a disponibilidade para mudar, ou achar que se tem imunidade perante os outros; é urgente desconfigurarmos a ideia de que tudo se resolve com o Tempo, quando, na verdade, tempo é algo que não temos, perante a catástrofe coletiva desenhada por cada um. No Tempo Político, faz-se o que se pode, o que se deve e o que não se deve, no Tempo Económico, lutamos contra a corrente, no Tempo Social, joga-se à Roleta russa e no Tempo Cultural evocamos uma superioridade anómala. Resta-nos o Tempo Moral, o tal que nos pode conduzir ao equilíbrio entre o Conhecimento tão necessário e crucial e o Comportamento, pedra angular para uma Mudança duradoura, crucial e essencial à vida.
Autor: Paulo Sousa