Na continuação de referências ao livro sobre Bento XVI, resultante do diálogo com Peter Seewald, é oportuno acrescentar algo sobre a renúncia do Papa Emérito.
A sua renúncia ao Papado aconteceu no dia 11 de fevereiro de 2013. Foi inquirido sobre a causa desse seu ato. No ano anterior tinha feito uma viagem ao México e a Cuba, que lhe custara imenso. O médico que o assistia aconselhou-o a não mais atravessar o Atlântico.
A atitude que tomou foi feita com total liberdade e a consciência da sua decisão. Tratou-se duma renúncia singular, pois nos últimos 1.000 anos tal não tinha acontecido na Igreja com nenhum Pontífice Romano. Houve alguém que tentou dissuadi-lo, mas sem o conseguir «porque possuía a certeza interior de que tinha de fazê-lo e, nesse caso, não era possível dissuadir uma pessoa».
Uma das razões da renúncia deve ter sido a memória do calvário dos últimos anos de vida do seu antecessor, que aceitou carregar a cruz até ao último momento da existência. João Paulo II sofreu imenso nos últimos anos do Papado e a falha de condições de saúde, de comunicação e de gestos, reduziram-no a um quase fracasso.
Bento XVI compreendeu a atitude do seu antecessor. “O meu antecessor tinha a sua própria missão. Depois de ele ter entrado com uma força impressionante, ter carregado aos ombros a humanidade, ter suportado com uma força incrível o sofrimento e o peso do século, fazia parte desse pontificado uma fase de sofrimento. No entanto, estou convencido de que não podíamos repetir a experiência indefinidamente”.
– A renúncia secularizou o Papado?
Bento XVI comparou o Papa a um bispo que aos 75 anos de idade pede dispensa do compromisso pastoral. Continua a ser “pai”. «Sou pai e continuarei a sê-lo», disseram alguns bispos. Se um bispo pode ser dispensado, por que não um papa? Continua com a sua dignidade paternal. A sua vida e a sua mensagem continuam vivas aos olhos dos crentes.
Bento XVI na sua vida e nos escritos privilegiou sempre uma relação profunda com Deus uno e trino. Na inquirição jornalística foi-lhe perguntado como vivia essa relação na nova situação em que se encontrava. Um dos termos que utilizou foi a de Tabor: «O Senhor chama-me a subir ao Monte Tabor». Explicou que essa frase significava o abandono da vida quotidiana que antes levava para subir a outro nível em que estaria mais direta e intimamente com o Senhor, libertar-se-ia das multidões humanas para se entregar a essa intimidade maior.
Uma pergunta que mereceu a Bento XVI um tríplice “não” foi a respeito do Amor. Este foi um dos temas centrais do Papa.
– Como viveu o Amor ou foi mais uma questão teórica, filosófica?
– «Não, Não e não. Quando não se sentiu o amor também não se pode falar sobre ele. Senti-o, primeiro, em casa, com o pai, a mãe, os irmãos. E, bom, não quero agora entrar em pormenores de natureza privada, mas em todo ocaso fui tocado por ele, de várias formas e em diversas dimensões. Ser amado e amar os outros de volta é algo que fui reconhecendo cada vez mais como fundamental para poder viver; para podermos dizer sim a nós próprios e aos outros. Finalmente, foi sendo para mim sempre evidente que Deus, Ele próprio, não só não é, digamos um governante poderoso e uma autoridade distante, mas também é Amor e ama-me, e que a vida se deve por isso organizar a partir d´Ele, dessa força que se chama Amor».
Autor: Manuel Fonseca