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Contra uma certa apatia

A poucos dias do início do outono, com os números da pandemia Covid-19 a prometerem infernizar-nos a vida, um Orçamento do Estado para 2021 para aprovar na Assembleia da República e o alvorecer de um novo ciclo eleitoral, a tranquilidade dos portugueses corre riscos que não devem ser menosprezados.

A estes factos ineludíveis acresce um panorama político conturbado e pouco claro. Basta observar o que se passa na direita e no centro-direita e reparar nos efeitos que a candidatura de Ana Gomes à presidência da república causou no Partido Socialista e ainda atender às reações que a presença do primeiro-ministro, António Costa, na Comissão de Honra de Luís Filipe Vieira na corrida às eleições do Benfica causou em diferentes quadrantes políticos, para aquilatar da veracidade desta constatação.

Na verdade, este quadro além de inquietante é extremamente imprevisível e bem merece uma breve reflexão, ponderada e atenta.

Mais à direita, André Ventura e o partido por si fundado vieram trazer à luz do dia laivos de extremismo que se julgavam definitivamente enterrados na sociedade portuguesa. Contudo, não é menos verdade que o seu discurso, em muitas áreas, apenas se aproveita do descontentamento de franjas importantes da população, dando voz a quantos em surdina reprovam os erros, os excessos e as vicissitudes de alguns protagonistas do regime democrático. Neste caso, o que é ainda mais grave é que os partidos tradicionais do centro-direita, PSD e CDS/PP, pecam por inércia e omissão, tardando em anunciar uma estratégia sólida e clara capaz de dar corpo a uma verdadeira alternativa diferenciadora da atual solução governativa. Quer Francisco Rodrigues dos Santos, líder do CDS/PP, quer Rui Rio, líder do PSD, têm mantido uma grande indefinição quanto ao rumo que pretendem seguir, criando um vazio na área do centro-direita gerador de amorfismo e de indiferença.

Mais à esquerda, quer o Bloco de Esquerda, quer o Partido Comunista Português mantêm as suas estratégias de influenciarem a governação, sem um comprometimento capaz de lhes tolher os movimentos de reivindicação e de protesto, características de que não podem abdicar sob pena de perderem boa parte da sua identidade.

Neste contexto quase abúlico da política portuguesa, nas vésperas de um ciclo eleitoral que principiará com as legislativas regionais dos Açores, a que se seguirão as presidenciais e as autárquicas de 2021, não será hora de o centro-direita se refazer?

Não será hora de os partidos tradicionais do centro-direita porem de parte as suas diferenças e darem as mãos para construírem uma opção de governo capaz de renovar a esperança numa alternância de poder, verdadeiro cerne dos regimes democráticos?

Não será hora de CDS/PP e PSD deixarem de se preocupar com as quezílias internas e pensarem em construir uma alternativa credível que não só tire a política portuguesa do amorfismo em que parece ter mergulhado, mas que também possa servir para isolar todas as tentativas radicais?

Um pouco ao jeito dos apelos dos ex-ministros Miguel Poiares Maduro, do PSD, e de António Pires de Lima, do CDS/PP, da passada semana, julgo ser tempo destes partidos pensarem mais no país, de serem mais assertivos nas suas posições e de poderem caminhar juntos na procura de alternativas que dignifiquem a democracia e deem aos portugueses uma real oportunidade de escolha.

A eleição presidencial do próximo mês de janeiro, com a reeleição quase certa do atual Presidente da República, será um momento aglutinador que, se bem aproveitado, servirá para potenciar aquele caminho pelo qual muitos portugueses anseiam.

Liberto das circunstâncias de um inédito cenário político com que teve de conviver, mais livre de circunstancialismos e amarras com que teve de lidar, estou certo de que Marcelo Rebelo de Sousa não deixará de preservar a sua independência e não esquecerá nem a sua família política, nem o povo que o reelegerá.

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Não será hora de os partidos tradicionais do centro-direita porem de parte as suas diferenças e darem as mãos para construírem uma opção de governo capaz de renovar a esperança numa alternância de poder, verdadeiro cerne dos regimes democráticos?


Autor: J. M. Gonçalves de Oliveira
DM

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15 setembro 2020