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Comunicar a paz

Sobre o que hoje me traz aqui à coluna não pretendo que pareça que estou a dar uma lição de moral. Longe disso! Quem sou eu para o fazer? Escrevo só o que me dita o pensamento depois de uma leitura, tanto quanto possível interessada e atenta, dos textos litúrgicos do Domingo em que escrevo esta prosa de crónica, o Domingo de Pentecostes.

Os tempos são de tensões e conflitos. Há dúvidas no horizonte, de norte a sul, de este a oeste do globo. Fúria, vingança, brutalidade e desrespeito. Ataques indiscriminados, sem olhar a meios para atingir os fins. Imagens de destruição e violência a toda a hora. Líderes mundiais com sede de mais e mais guerra para satisfazer instintos de malvadez e interesses eleitorais. Tempos indefinidos comentados por especialistas a todo o momento nos meios de comunicação social. Que coisa triste haver especialistas em assuntos de guerra quando o mundo precisa de paz!... Quem nos comunica a bonança, a paz? Precisamos de líderes que nos comuniquem a paz. Para comunicar este desígnio é preciso ser credível, querer concretizá-lo de verdade. Não basta a publicação de um ou outro texto numa qualquer rede social, nem alguma conferência de imprensa a explicar ou justificar alguma acção bélica. Comunicar a paz é outra coisa e precisa de ser precedida da reunião dos diversos intervenientes, dispostos a acabar os conflitos e todos acreditando uns nos outros quando se sentam à mesa de negociações a discutir o objectivo. A paz faz-se com vontade, com cedências, desmontando defesas e deixando de lado autoritarismos. Se assim não for, poder-se-á comunicar um cessar-fogo, sempre provisório, duvidoso, para ganhar tempo e posição, mas nunca se consegue comunicar a verdadeira paz. As exigências, as condições não deixam de perturbar o processo. Deixa de ser autêntico o modo de o fazer. A paz dos homens costuma ter estes senãos, é efémera. Os interesses, as vaidades, os gestos e atitudes de superioridade presentes não conduzem a uma paz que se sinta, duradoura, muito menos definitiva.

Começo a escrever às primeiras horas de Domingo, ainda não são nove horas da manhã. Tomo o pequeno almoço num estabelecimento de restauração junto ao Templo que normalmente frequento aos Domingos, nos dias do Senhor, aqueles a que chamo assim desde cedo, ao recordar o que ouvia a meu saudoso Pai dizer quando se referia ao quarto do Senhor, a divisão lá de casa onde havia um crucifixo na parede. Perdoem-me mais uma vez, caros leitores, de escrever algumas vezes nesta coluna sobre as coisas de Deus para as quais não me sinto suficientemente preparado. Escrevo o que me vai na alma e aproveito estes momentos para partilhar o que vai fervilhando no meu pensamento. Desta vez, coincidiu ser aqui, sentado a degustar o que mais aprecio na primeira refeição do dia. Olho pelas vidraças do estabelecimento as pessoas que se dirigem à Basílica onde gosto de escutar e interiorizar a celebração da Palavra de Deus. Daqui a pouco sairei de onde estou e talvez a reflexão que procuro hoje para a crónica que aqui apresento se complete com a ajuda do que escutarei nesse espaço de oração e contemplação do Divino com a proximidade que não encontro numa qualquer rua ou num outro espaço de fruição e lazer.

A partir daqui, a modesta reflexão que hoje partilho decorre umas horas depois, a meio da tarde. Os promotores da guerra vivem fechados em si mesmos. Que bom seria que ouvissem “um rumor semelhante a forte rajada de vento” que os inspirassem e fizessem envolver voluntariamente numa missão séria de encontrar a paz e compreendessem, um, outro e outro, que a guerra não se ganha, que nenhuma superpotência a ganha e que a paz não nasce da vitória de nenhum dos beligerantes, mas da comunicação da paz dos intervenientes, traduzida no desarmamento geral e incondicional de todos e de cada um. Nenhum de nós se pode demitir do processo, o que passa por acolher todos, sem divisões e num só espírito, e sem nos fecharmos em certezas individualistas.

Luís Martins

Luís Martins

26 maio 2026