1. Prometemos continuar a abordagem do tema “Regresso à igreja doméstica” e vamos fazê-lo, porque é um tema vital para a igreja de hoje e que pode passar por cima de muitos tabus ideológicos institucionalizados que a poeira da História foi acumulando. E também porque se mostrou fecundo ao estimular outros a abordá-lo nas suas preocupações. Mas, hoje, vamos falar de uma situação urgente, que é o regresso progressivo das actividades económicas.
Neste momento, a sociedade já não se preocupa só com a ameaça de morte do covid-19, mas também com a ameaça económica devido á paralisação da economia. A questão é o perigo de se deitar tudo a perder... Ambas as preocupações são decisivas, porque ninguém vive sem comer, mas também não adianta ter que comer se morrer…A prioridade é a vida; a economia sempre se pode restabelecer, mas a vida não… Se não se controlar primeiro a epidemia, não se vai conseguir restabelecer a economia. Essa é também a recomendação da Comissária europeia da Saúde, quando avisa que “é preciso muita cautela no levantamento das restrições”. O ponto crucial desta pandemia do coronavírus, que assola hoje mais de 2,4 milhões de casos no mundo inteiro e já sofreu mais de 30 mutações (o que torna mais difícil controlá-lo), é que ela põe em perigo a proximidade das pessoas na actividade social, exigindo distanciamento para se proteger dele. Mas, todas as actividades sociais se baseiam na proximidade…Como fazer?
2. Retomar já as reuniões tradicionais de culto nas igrejas? No estado actual de disseminação do vírus, ainda parece muito arriscado fazê-lo. Como guardar as distâncias necessárias? Vão manter hábitos de grande risco, como o uso da água benta na mesma pia, dar a comunhão já nem digo na boca mas até na mão, partir a hóstia e dar aos outros, o abraço de paz, cumprimentar-se, tocar em objectos que toda a gente toca e que não foram desinfectados? Vão fazer o despiste elementar de temperatura antes de entrar? Quem preside vai ter uma declaração recente de teste de despiste de contágio para tranquilizar os visitantes? Desinfectar as vestes tradicionais e outros objectos que usam? Muitas dúvidas…
-Retomar já o futebol? Pode deitar a perder todo o esforço que se fez até agora. Hoje, admite-se que o jogo para a Champions, em Liverpool, poderá ter sido a causa do surto de Covi-19 nessa cidade, do qual morreram já muitas pessoas…A DGS diz que é um assunto melindroso e que há regras para toda a população que têm de ser cumpridas…Os próprios jogadores têm medo.
-Retornar às praias? Compreendo, mas é difícil controlar os lugares. Quem vigia as distâncias? O pior disto tudo é que o vírus anda por aí… mesmo sem sintomas. E os contágios acontecem…
-Comemorações do 25 de Abril na Assembleia da República e manifestações do 1º de Maio? Tudo isto soa a que certos grupos políticos têm medo de perder o controlo ideológico destes símbolos e instrumentos de poder e continuam a reclamar a posse ideológica de comemorações que são de toda a gente. Toda a gente sabe que, com o passar do tempo, as comemorações valem apenas aquilo que seja útil à vida das pessoas; o resto passa a ser História das Ideologias… E pensar que se pode inverter a marcha da História apenas com fervor ideológico é pura utopia e mero passatempo, embora, para alguns, lucrativo...Concordo com a atitude realista de Cavaco Silva: não vai porque está em confinamento na sua casa, como toda a gente da sua idade.
3. Reabertura das creches? Neste momento, ainda é arriscado. E mesmo desumano… Os pais não aceitam que as crianças sejam atiradas para a fogueira do risco de contágio do coronavírus. E as próprias crianças têm medo, como mostra este testemunho que chegou de Espanha: “Mãe, tenho medo do coronavírus...ele é um monstro”…. Quem escreveu que “este vírus é bonzinho e praticamente não afecta crianças, adolescentes e adultos jovens…” devia saber que essa não é a opinião da Universidade do Sul da Flórida, nem do Instituto de Mulheres para a Pesquisa Social Independente, nem do Journal of Public Healt Management and Pratice (que escreve que, por cada criança que necessita de cuidados intensivos há outras 2.381 que podem estar infectadas), nem sequer do Centro Chinês de Controle e Prevenção da Doença (que informa que 2.100 crianças já sofreram de Covid-19). Apoio, por isso, os abaixo-assinados contra esta decisão que correm na internet e que contam já com mais de 40.000 assinaturas. Para além do mais, como é que iriam proceder? Medir a temperatura a cada criança antes de entrar, guardar distâncias e usar máscara, como na Coreia do Sul? E fariam o mesmo com o pessoal adulto, para além de exigir um teste recente em como não está infectado? Não esqueçam que, politicamente, estas mães se sentem como leoas feridas…E que as leoas feridas são mais agressivas que os leões famintos. Elas podem, amanhã, ter uma palavra a dizer…
Autor: M. Ribeiro Fernandes