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A padroeira da música

Celebra-se, amanhã, dia 22 de novembro, a memória litúrgica de Santa Cecília, desde o século XVI tida como padroeira dos músicos e da música sacra, em virtude de a tradição dizer que, no dia das suas núpcias, “enquanto os órgãos tocavam, ela cantava em seu coração somente para o Senhor” e referir que teria morrido a cantar a Deus. Apesar de não se saber muito sobre a sua vida, as escavações arqueológicas não deixam dúvidas sobre a sua existência. Teria nascido em Roma, em meados do séc. II, e sofrido o martírio entre 176 e 180, ao tempo do imperador Marco Aurélio; ou então pelo ano 230, durante o império de Alexandre Severo. A sua vida foi registada no séc. V, na narrativa Paixão de Santa Cecília, relato que narra, de forma fantasiosa, o seu martírio. A propósito, diz a Liturgia das Horas: “O culto de santa Cecília, em honra da qual foi construída em Roma uma basílica, difundiu-se por causa da sua Paixão. Nela, Cecília é exaltada como o modelo mais perfeito de mulher cristã, que por amor a Cristo professou a virgindade e sofreu o martírio”. Cecília pertenceria à família dos Metelos, sendo filha de um senador romano e cristã desde a infância. Nobre e rica, participava diariamente na eucaristia celebrada pelo papa Urbano, nas catacumbas da Via Ápia, onde era esperada por uma multidão de pobres que conheciam bem a sua generosidade. Foi dada em casamento, pelos pais e contra a sua vontade, a um jovem chamado Valeriano, a quem confidenciou: “Valeriano, acho-me sob a proteção direta de um Anjo que me defende e guarda a minha virgindade. Não queiras, portanto, fazer alguma coisa contra mim, o que provocaria a ira de Deus contra ti”. E informou o noivo de que era cristã e tinha feito a Deus o voto de virgindade. Valeriano ficou impressionado com as declarações da noiva, converteu-se e recebeu o batismo, nessa mesma noite. Além disso, comunicou a seu irmão Tibúrcio o que se tinha passado e também este se tornou cristão. Por causa disso, foram martirizados e Cecília sepultou-os, na sua vila da Via Ápia. Quando o prefeito Almáquio sugeriu a Cecília que optasse entre prestar cultos aos deuses ou morrer, ela escolheu morrer. E quando lhe disse que tinha sobre ela o direito de vida ou de morte, Cecília respondeu-lhe: “É falso, porque podes dar-me a morte, mas não podes dar-me a vida”. O prefeito ordenou que morresse asfixiada, mas como resistiu ao suplício, mandou que lhe cortassem a cabeça. O seu corpo foi sepultado nas catacumbas de S. Calisto. Foi uma das santas mais veneradas na Idade Média e tem como seu principal templo a Igreja que, em Trastevere, lhe é dedicada. Foi aí que, em 1599, por ordem do Cardeal Sfrondati, o seu túmulo foi aberto. O corpo estava incorrupto e o escultor Stefano Maderno esculpiu uma estátua que o reproduz, em tamanho natural e na posição em que fora encontrado. A figura de Santa Cecília marca presença no mundo da música e da poesia. Os compositores eruditos Henry Purcell, Georg Friedrich Händel e Benjamim Britten escreveram composições em sua honra. Também lhe fazem referência os poetas John Dryden, Alexander Pope e Wystan Hugh Auden, assim como os músicos mais populares Paul Simon, David Byrne, Brian Eno e Dave Grohl. Por ser padroeira da música, o seu nome aparece associado à Accademia Nazionale di Santa Cecilia, uma das instituições musicais mais antigas do mundo, fundada em 1585, pelo Papa Sisto V. Entre nós, o mesmo acontece com a Academia de Música de Santa Cecília, fundada em 1964, na freguesia de Santa Clara, em Lisboa; e com o coro de Santa Cecília, em Vila do Conde. Noutros tempos, havia também no Seminário Conciliar de Braga a Academia de Santa Cecília que promovia, por esta altura, uma atividade musical de relevante valor. Na Diocese de Braga, Santa Cecília é padroeira da Paróquia de Vilaça (Braga) e de Ocua (Diocese de Pemba, Moçambique), que Braga adotou como a sua 552ª paróquia e apadrinha. É verdade que a festa de Santa Cecília não tem hoje, entre nós, a mesma expressão que teve noutros tempos, mas o legado desta mulher mantém-se vivo e atual, pela ousadia do testemunho de fé, no meio da perseguição. Além disso, o facto de ser padroeira da música interpela-nos no sentido de velar pela qualidade musical das nossas celebrações litúrgicas, não raras vezes dela privadas.
Autor: P. João Alberto Correia
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21 novembro 2022