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“A Louca da Casa”

Uma grande santa da história da Igreja, que hoje, 15 de Outubro, se celebra, dotada de uma argúcia prodigiosa para entender e qualificar a natureza e o comportamento do ser humano, sabendo agradecer a Deus todas as faculdades naturais com que a dotou, foi uma grande mística e teve muitas ocasiões de contacto sobrenatural com o Senhor. No entanto, tudo isto que viveu e experimentou, nunca a privou de ter um sentido comum normal e objectivo perante a realidade da nossa vida. Como a “graça não destrói a natureza; antes pelo contrário, a enriquece e completa”, como diz um velho ditado escolástico, Santa Teresa de Ávila, a grande reformadora da Ordem dos Carmelitas, de quem falamos, foi sempre profundamente realista ao caracterizar a nossa conduta. Não deixou de apreciar o que podemos fazer – desde que o façamos bem, ou de apontar o erro, quando prevaricamos.

Ora, a liberdade humana, com que Deus nos criou, torna-nos parecidos ao ser divino, como se diz no Génesis: “Deus criou o homem à Sua imagem, criou-o à imagem de Deus” (Gn 1 27). As acções humanas são boas, quando estão de acordo com o que Ele nos pede, tendo naturalmente em conta que as exigências solicitadas pela vontade divina sempre são para o ser humano o melhor, o mais conveniente e acessível. Nada exige que não esteja em consonância com as nossas possibilidades de execução, considerando também as circunstâncias em que determinado acto deve ser realizado. Como lembra S. Paulo: “Ninguém é tentado acima das suas próprias forças” (1 Cor 10, 13).

Deus pode pedir-nos que vivamos e suportemos situações duras e difíceis de encarar e de concretizar. Recordemos o desabafo de Jesus no Jardim das Oliveiras, na perspectiva próxima da sua prisão e condenação à morte na Cruz: “Pai, se é possível afasta de mim este cálice; mas não se faça a minha vontade, mas a tua” (Mt 26, 42). Se não tivesse obedecido a Deus, seu Pai, a redenção do homem ficaria por fazer e o Reino dos Céus não seria o nosso destino na sequência desta vida terrena. O exemplo de Cristo serve-nos de lição sobre a forma como devemos aceitar as situações de dor e de incómodo, sejam elas como forem, tendo perfeita consciência de que Deus nos ampara sempre com toda a sua graça.

Devemos, contudo, prevenir-nos de que a nossa conduta, com frequência, pode ser entravada ou desnorteada por uma faculdade da natureza humana, a que habitualmente chamamos imaginação. Ela é a executora primorosa de tantas obras de arte que nos encantam e deleitam, motivo pelo qual damos graças a Deus por ter concedido aos artistas essas maravilhosas capacidades de concretização estética. É também a mestra que, amiúde, nos leva a encontrar uma solução certa para um problema difícil. Companheira de viagem de outras faculdades necessárias para a boa execução do que fazemos – falamos, concretamente, da inteligência, da vontade e também da afectividade – ela presta-nos excelentes serviços na resolução séria das problemáticas habituais e dá, como alguém comentava, o “sal” necessário e alegre às resoluções de tantos actos mais complexos que a vida reclama.

Não esqueçamos, porém, que se não está devidamente condimentada pelo bom senso e pelos deveres reais que contraímos, ela pode transformar-se numa espécie de cavalo sem freio, que nos arroja por veredas desmedidas, que acabam em precipícios de diferentes tons negativos: dor, imoralidade, desânimo, crime, frustração, enfim, tudo o que não deseja uma consciência recta e consistente. Neste aspecto, Santa Teresa de Ávila, chama-lhe com grande precisão: “A Louca da Casa”. Esta mulher, que concretizou, na sua vida tantas e tantas solicitações de Deus, de difícil realização, amou sinceramente a imaginação no bom sentido. Aliás, se a não possuísse, seria incapaz de concretizar tudo o que o nosso criador lhe pediu, nomeadamente na reforma da sua Ordem, que lhe custou sacrifícios contínuos, enfrentar-se com oposições de gente boa que não entendia (ou, em certos casos, talvez não quisesse entender) tudo o que ela ia propondo e realizando, etc. Não se deixou conduzir pela “Louca da Casa”, que é infértil, mas pela vontade de Deus, que tem uma dimensão e um acerto que só pode explicar-se pela graça sobrenatural proveniente de Quem é omnisciente e omnipotente, isto é, absolutamente perfeito.

Necessitamos de conhecer bem a nossa “Louca da Casa”. Se metermos a mão na consciência, sentimos com facilidade que os procedimentos feitos nem sempre são o que deviam ser, porque nos deixamos conduzir pela arreata dessa capacidade tão boa – foi Deus quem no-la deu –, que é a imaginação, mas nos seus contornos feios e desmedidos: um juízo depreciativo sobre alguém sem objectividade, uma preguiça que nos levou ao adiamento do que era para realizar nesse momento, uma desculpa sobre o que fizemos ou não fizemos, que nos serve para explicar falsamente uma realidade negativa do nosso modo de agir. Fiquemos por aqui. Os exemplos são múltiplos e variados, e nós, se somos humildes, facilmente os descobriremos.


Autor: Pe. Rui Rosas da Silva
DM

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17 outubro 2020