twitter

A guerra na Ucrânia: um flagelo desumano

Todos nos recordamos certamente das pretensões do ditador russo, Putin, quando, em Fevereiro passado, convencido da sua força e das suas possibilidades bélicas, de maneira rápida e surpreendente, entrou na Ucrânia, com o intuito de impor, sem mais, a sua vontade. Era apenas uma “Operação militar especial”, algo de curta duração e sem grandes repercussões. Como pessoa que está habituada a mandar, sem olhar com cuidado e complacência para os meios de impor a vontade imperativa, a sua maneira de explicar com ligeireza a decisão tomada, defraudou-se perante a resistência dos ucranianos, que já elevaram a vários milhares as mortes dos soldados russos invasores, além de um número muito mais avultado de feridos. Decerto também que entre os defensores, os cálculos sobre mortes e feridos é igualmente bastante duro.

Como antigo membro da KGB, polícia política defensora da ditadura comunista, os seus fundamentos éticos baseiam-se na força e na capacidade de quem tem e consegue gerir dum modo coercivo as ideias que vigoram entre os detentores do poder. A sua polícia prendia e torturava os cidadãos, quando não os fazia desaparecer de cena. O que importava era manter o regime político em vigor na antiga União Soviética. Os meios usados, no entender dos governantes e de quem os amparava policialmente, resumiam-se àqueles que mantêm a situação de mando de quem gere os destinos do país. Não lhes repugnava recorrer a métodos violentos e anti-humanos. O respeito pela liberdade não permitia que esta contradissesse quem governava politicamente. Isso era um crime. E, enquanto tal, devia ser punido com rigor e violência. Nesta ordem de ideias, o cidadão sabia que não podia querer respirar como um ser livre, mas respeitando, dum modo calado e nada chamativo, as indicações dos superiores dirigentes do partido único que geria os destinos da Rússia de então e de outros países que depois se autonomizaram, com a morte do comunismo soviético.

Pois este antigo membro do que, em linguagem comparativa lusitana, se parecia com o que era a PIDE (creio que esta organização policial política e nefasta nunca foi tão anti-humana como a KGB), conseguiu, passo a passo, com subtileza e eficácia, tomar conta do poder da Rússia. Na sua mente, decerto que Moscovo, com a queda da União Soviética, apesar de ser a capital do maior país do mundo, ficou com o seu poder diminuído e reduzido também geograficamente.

Mas as saudades do realidade política que viu desaparecer, subiram-lhe à mente e, como antigo membro dum regime totalmente opressivo, achou que devia pôr os pontos nos ii, e acabar com a legítima liberdade de um país, que, no seu parecer, precisava de ser “desnazificado”.

E, tal como Hitler no passado século XX em relação à Polónia, sem consultar quem quer que fosse, sem dar razões explicativas sérias do que pretendia fazer, invadiu a Ucrânia militarmente. Só que a referida “Operação militar especial”, que o infalível cérebro do ditador congeminava como uma ligeira e suave manobra das suas tropas, transformou-se num pesadelo e num custo humano e material fortíssimo para o povo russo - já se assinalou o número de mortos e de feridos entre os militares invasores, além dos prejuízos económicos que a Rússia está a suportar.

Quando um político pensa por si e não tem em conta o parecer do seu povo, para além daqueles que o apoiam de um modo incondicional, não deve esquecer-se do velho ditado “errare humanum est”. Não basta pensar em fazer algo para que isso seja um bem ou, até, uma realidade que deva ou se tenha capacidade de concretizar. E Putin deve estar a concluir, depois destes meses todos de guerra, que se enganou redondamente. É óbvio que não quer dar ao mundo essa ideia. Seria um falhanço reconhecido pela seu próprio promotor.

O ditador do Kremlin defende-se, lembrando que a resistência ucraniana tem sido possível, graças ao auxílio recebido pelos países do mundo ocidental. Insistimos: pôr de parte essa possibilidade é um erro de visão ou de previsão indesculpável; é uma ingenuidade de quem pensa que pode fazer tudo o que quer e que tudo irá ocorrer como ele imagina.

Na sua consciência devia pesar o sofrimento que está a causar a numerosas famílias do seu país e também da Ucrânia - atrás o lembrámos - com o óbito e os graves ferimentos de tantos e tantos militares, além dos civis do país invadido que os bombardeamentos matam ou deixam com o seu lar em ruínas. Provavelmente, insistimos, não imaginou as consequências económicas tão gravosas que a Rússia suporta e que, com a continuidade do conflito, decerto serão cada vez mais acentuadas.

Antes de começar a fazer uma “Operação militar especial”, um político que se preze deve medir, com calma e serenidade, o que dela pode advir. Lançar-se precipitadamente, ou com ingénua ideia de que tudo decorrerá sem grandes problemas, é uma prova de que quem dirige dum modo ditatorial um país, confia cegamente na sua capacidade de liderança indiscutível. Os erros, costuma dizer-se, “pagam-se caros”. E se Putin tem alguma consciência deve pensar nos danos humanos brutais que está a causar ao seu país e ao país invadido.

A KGB morreu. Mas, pelos vistos, deformou, dum modo sádico, a ideia de justiça e de respeito humano dos seus antigos membros.


Autor: Pe. Rui Rosas da Silva
DM

DM

8 novembro 2022