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Nutrição e doença oncológica: o papel da alimentação em cada fase

A relação entre alimentação e doença oncológica é frequentemente abordada através de recomendações gerais, alimentos considerados protetores ou dietas com benefícios nem sempre sustentados pela evidência científica. Compreender esta relação exige distinguir três momentos: prevenção, tratamento e recuperação.

Na prevenção, a alimentação pode contribuir para reduzir o risco de determinados tipos de cancro. Padrões alimentares ricos em hortícolas, fruta, leguminosas e cereais integrais, integrados num estilo de vida saudável, estão associados à redução do risco de algumas doenças oncológicas.

Recomenda-se valorizar os alimentos de origem vegetal e a fibra, limitar o consumo de carne vermelha e de carnes processadas, evitar bebidas alcoólicas e limitar bebidas açucaradas e alimentos de elevada densidade energética e baixo valor nutricional. A prática regular de atividade física e a manutenção de um peso corporal adequado constituem igualmente medidas importantes.

Estas recomendações não significam que exista um alimento capaz de prevenir o cancro ou que um padrão alimentar elimine o risco de doença, que depende de múltiplos fatores.

Durante o tratamento oncológico, as prioridades nutricionais podem ser substancialmente diferentes. A doença e os tratamentos podem comprometer a ingestão alimentar, alterar o metabolismo e deteriorar o estado nutricional. A perda de apetite, as náuseas, as alterações do paladar e as dificuldades de deglutição podem dificultar a alimentação. A perda involuntária de peso e de massa muscular pode afetar a capacidade funcional, a qualidade de vida e a tolerância aos tratamentos.

Nesta fase, recomendações dirigidas à população saudável podem revelar-se inadequadas. A prioridade poderá ser assegurar um aporte energético e proteico suficiente, adaptar a alimentação aos sintomas e, quando clinicamente indicado, recorrer a suporte nutricional.

A avaliação nutricional individualizada é essencial para identificar problemas e estabelecer prioridades. Importa considerar o tipo e estádio da doença, os tratamentos, os sintomas, a ingestão alimentar, o estado nutricional e a capacidade funcional. A monitorização permite acompanhar a evolução e ajustar a intervenção às necessidades identificadas, em articulação com a equipa de saúde.

Após o tratamento, a intervenção nutricional continua a ser relevante. A recuperação pode exigir reabilitação nutricional, recuperação da massa muscular e da capacidade funcional e adaptação a sintomas persistentes. Sempre que a situação clínica o permita, importa promover hábitos alimentares favoráveis à saúde a longo prazo, respeitando as necessidades individuais.

A alimentação não substitui os tratamentos oncológicos, não garante a ausência de recidiva nem justifica restrições alimentares sem fundamento clínico. A divulgação de dietas anticancro, alimentos milagrosos ou estratégias de eliminação de nutrientes pode criar expectativas irrealistas e comprometer a adequação nutricional.

A intervenção do nutricionista permite traduzir a evidência científica em recomendações ajustadas à situação clínica, aos objetivos terapêuticos e às circunstâncias de cada pessoa, integrando os cuidados de saúde prestados.

A alimentação tem um papel importante antes, durante e após a doença oncológica, mas esse papel não é sempre o mesmo. Reconhecer estas diferenças ajuda a evitar generalizações e a promover decisões informadas. Prevenir, tratar e recuperar exigem objetivos distintos, sustentados na evidência científica e nas necessidades individuais.

Teresa Campos

Teresa Campos

6 novembro 2026