O que é que seria impossível fazer caber numa caixa de sapatos? Foi esta a pergunta que coloquei a um grupo de professores, numa das minhas formações de Filosofia para Crianças e Jovens, quando trabalhávamos os «ses» e os «porquês» da comunidade de investigação filosófica. Uns responderam que seria impossível lá colocar o Sol, enquanto outros falaram do amor, do mar, de uma montanha, da felicidade ou do Universo. Entretanto, uma professora deu uma resposta que me deixou a pensar e inspirou esta crónica. Disse ela que aquilo que não cabia naquela caixa era a própria impossibilidade.
Caros leitores, falar do impossível é entrar num terreno onde a filosofia tem muito que nos dizer. Quantas vezes ouvimos dizer que «nunca digas nunca», que «a fé move montanhas», que «o céu é o limite» ou que «não há impossíveis»? A sabedoria popular, porém, também nos lembra que nem tudo se consegue, pois, como diz o povo, «não se pode tirar leite de uma pedra». E é aqui que as nossas certezas começam a vacilar, porque nem sempre sabemos distinguir aquilo que é impossível daquilo que apenas nos parece ser.
Mas será que tudo aquilo que consideramos impossível o é realmente? Aristóteles formulou um princípio fundamental da lógica, segundo o qual uma coisa não pode ser e não ser, ao mesmo tempo e no mesmo sentido. É impossível uma porta estar completamente aberta e completamente fechada no mesmo instante e nas mesmas condições. Também não podemos encontrar um solteiro casado. É que nem com muita imaginação conseguimos casar um solteiro sem ele deixar de o ser.
Por outro lado, o filósofo David Hume escreveu que «tudo o que concebemos é possível, pelo menos num sentido metafísico». Ora, esta ideia leva-nos a pensar na diferença entre aquilo que é impossível e aquilo que apenas julgamos impossível. Durante séculos, o homem sonhou voar como os pássaros, falar com alguém do outro lado do mundo ou caminhar na Lua. E, no entanto, aquilo que parecia impossível acabou por acontecer. Mas atenção, porque imaginar uma coisa não significa que ela possa acontecer. Podemos imaginar um homem a voar sem asas, mas não podemos fazer com que dois mais dois sejam cinco.
A propósito destas questões, recordo O Senhor Valéry, de Gonçalo M. Tavares, um livro delicioso onde o impossível e o absurdo andam de mãos dadas. O senhor Valéry era tão baixo que dava saltos para conseguir ficar da altura das pessoas altas. Mas depressa percebeu que só era alto enquanto estava no ar. Experimentou subir para um banco e chegou a imaginar que poderia suspender a gravidade. Como não encontrou solução, decidiu ser alto na sua própria cabeça, imaginando que observava as pessoas de uma altura superior à sua. Ora digam-me, caros leitores, não será esta uma maneira extraordinária de mostrar que aquilo que é impossível na realidade pode tornar-se possível na nossa imaginação?
Contudo, nem todos os impossíveis pertencem à ciência ou à lógica. Há os impossíveis da vida, que são bem mais difíceis de explicar. E, a este propósito, recordo um provérbio oriental que nos lembra que há três coisas irremediáveis, «a palavra que foi dita, a flecha que se lançou e a oportunidade que se perdeu». Há palavras, oportunidades e abraços que, depois de perdidos, já não podemos recuperar.
Regresso àquela professora e à sua resposta. Afinal, a impossibilidade cabe ou não cabe numa caixa de sapatos? Não podemos colocar lá uma ideia como colocamos um par de sapatos, mas podemos escrever a palavra «impossibilidade» num papel e guardá-lo dentro da caixa. E eis que uma simples pergunta nos obriga a distinguir as coisas das palavras e aquilo que existe daquilo que pensamos.
Meus amigos leitores e minhas amigas leitoras, deixo-vos também o desafio de procurarem uma resposta à pergunta que fiz aos professores. Experimentem colocá-la aos vossos filhos, netos ou amigos e verão como uma caixa vazia pode dar origem a uma conversa cheia de ideias. É esta a maravilha da filosofia, descobrir que até aquilo que julgamos saber ainda nos pode surpreender!
Por fim, quero partilhar convosco uma última reflexão que esta simples caixa de sapatos me inspirou.
«Talvez o maior impossível seja acreditar que já conhecemos todos os limites do possível.»