O santo é feliz porque o seu objetivo de vida não é ser feliz.
O santo é feliz porque a sua prioridade não é fazer a sua vontade, mas a vontade de Deus (cf. Mt 6, 10). E, fazendo a vontade de Deus, acaba por encontrar a felicidade.
O grande problema da nossa época é a ausência de felicidade. Todos a querem e parece que ninguém a encontra. Efetivamente e como registou André Malraux, «as pessoas são muito mais infelizes do que se pensa».
Mesmo quando tudo corre bem, não falta quem continue a carregar o fardo da infelicidade. Quantas vezes já não ouvimos dizer «tenho tudo para ser feliz e não o sou».
Acontece que, a montante e a jusante, há um problema ainda maior, identificado por André Comte-Sponville: «não sabemos o que é a felicidade».
George Bernard Shaw exponenciou esta turbulência: «Há duas catástrofes na nossa existência. A primeira quando os nossos desejos não são satisfeitos e a segunda quando o são».
O mais comum é a tendência para alocar a felicidade na satisfação dos desejos.
Sucede que a espera de tal satisfação gera uma ansiedade pouco compatível com a felicidade. E a própria concretização dos desejos também não sacia, parecendo sempre faltar qualquer coisa.
Consistirá, então, a felicidade numa renúncia à…felicidade? Para Nicolas Chamfort, «a felicidade só começou quando a perdeu».
Analogamente, Jules Renard declarou: «Sou um homem feliz porque renunciei à felicidade». Ambos subscreverão uma das máximas do «Mahâbhârata»: «O desespero é a maior felicidade».
Ninguém será feliz quando se coloca no centro, esperando – ou exigindo – tudo dos outros.
A felicidade só nos visita quando nos instalamos na direção primordial da nossa existência, verbalizada pelo Sábio de Hipona: «Fizeste-nos para Vós, Senhor, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em Vós».
É por isso que, como sinalizou o Mestre Jesus, «há mais felicidade em dar do que em receber» (At 20, 35).
A revolução individualista não concebe – nem consente – tal proposta. Mas também se mostra incapaz de conduzir o ser humano até aos umbrais da felicidade.
A cultura hodierna rebola-se na posse, mas a felicidade só entra em nós pela dádiva.
A felicidade verdadeira nunca é solteira, nunca está centrada no «eu».
É por isso que Jesus proclama felizes «os pobres», «os que choram», «os que sofrem perseguição», «os que são injuriados e insultados» (cf. Mt 5, 1-12).
Como é possível ser feliz assim? Quando rumamos na direção de Deus, nem as adversidades nos abatem e até «morrer pode ser lucro» (Fil 1, 21).
Renunciar a si mesmo (cf. Mt 16,24) não é renunciar à felicidade. Pelo contrário, é encontrá-la talvez do modo mais inesperado, mas também mais consistente.
Se fizermos da felicidade uma obsessão, jamais seremos felizes. Ao invés, quando a vontade de Deus está em primeiro, a felicidade acompanha-nos por inteiro!