Um dos nossos maiores males e que nunca joga a nosso favor é valorizarmos o que é dos outros e menosprezarmos o que é nosso; e já nos meus longínquos tempos de criança, quando íamos para o recreio da escola primária, o naco de pão do vizinho (o seu lanche) era sempre melhor do que o nosso, e assim até o pão trocávamos.
E esta forma de ser, traduzida em ações globais e transnacionais, faz com que os portugueses sejam assim; dizem sempre mal do que é nacional e bem do que é estrangeiro; e, então, em termos práticos, por exemplo, compram roupas, fruta, perfumes, quinquilharias… pois o que vem de fora é que é bom, barato e bonito.
Vejamos a situação na realidade: ainda, há tempos, assisti, à distância, a uma conversa de café entre dois reformados: um apaixonado por viagens ao estrangeiro e o outro mais dado a passeatas nacionais.
Dizia o primeiro:
Ah! As paisagens das Astúrias, dos Alpes, dos Apeninos é que são; nós por cá não temos nada que se compare.
Retorquiu o amigo, perguntando-lhe:
Por acaso já subiste à Estrela, ao Marão ou ao Soajo?
E a sua resposta foi: que não, que não estava para perder tempo e dinheiro com minudências, com caseirices.
Pois é, talvez nesta lusitana tendência para dar maior importância ao que é dos outros, resida a nossa ancestral paixão marinheira; e paixão essa que nos levou às quatro paragens do mundo, vencendo marés, acalmando ventos, domando tempestades, deixando pelo mundo a nossa alma repartida.
Depois, igualmente esta nossa veia emigrante nos tenha levado a procurar novos horizontes, novas culturas, novas formas de vida, ao abandonarmos o nosso tugúrio em troca de novas paragens; e aqui se afirme e vence a vaga de emigração, seja para o Brasil, seja para a Europa e, modernamente, para todas as partes do mundo.
E, nos tempos em que vivemos, se bem pensarmos, a saída do país para o mundo pauta-se por uma enorme massa de juventude altamente qualificada, seja em termos culturais, seja em termos profissionais; e esta sangria nacional de talentos e profissionais competentes deixa-nos, em termos gerais, menos capazes, menos obreiros, menos inovadores e menos criativos.
Até se costuma dizer que em cada peito lusitano medra um acendrado espírito de aventura e de busca pelo que é novo, é diferente, é estrangeiro; só que este abandono forçado e inevitável do cantinho onde se nasce e cresce tem por detrás a necessidade óbvia de procura noutros locais, noutras paragens, noutros horizontes formas de viver mais rentáveis e seguras; e, até, se diz com propriedade e verdade que, hoje, em qualquer parte do mundo e em qualquer lugar seja de que país for sempre encontramos um português.
Agora, se queremos um país mais desenvolvido e onde seja bom crescer, viver e constituir família, a solução passa, a meu ver, pelos governos, pelos governantes e pelos políticos; pois só estes têm o poder que o povo lhes confere, através do voto nas umas, para criarem leis com que se abram horizontes de progresso, de desenvolvimento e de futuro, bem capazes de criar no povo a antiga alma lusitana que se foi paulatinamente abastardando e perdendo.
E criar, como cantou Camões, nos Lusíadas: o peito ilustre lusitano a quem
Neptuno e Marte obedeceram.
Então, até de hoje a quinze.