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Deve-se educar o povo de Deus no valor do silêncio (19)

A afirmação do título deste texto é de Bento XVI na Verbum Domini, n.º 66. O silêncio que realmente importa é o silêncio interior. Mas seria absurdo falar de silêncio interior sem silêncio exterior. Trata-se de um silêncio positivo, capaz de fazer crescer a beleza. Há 5 espécies de silêncio positivo:

Ascético – abrir um espaço para poder receber;

Místico – encontro que acontece através da escuta;

Sacrificial -- o dom de si como resposta ao encontro;

Contemplativo – adoração e comunhão;

Eterno – deleite atemporal na comunhão: uma união que transforma.

Trata-se de um quíntuplo movimento criativo, que é, ao mesmo tempo, o padrão que segue o início da vida na terra; o padrão que segue o início da vida divina na alma; o padrão que segue a Criação no Génesis; o padrão da Incarnação em Maria; o padrão dos silêncios da missa e o padrão da transformação nas nossas almas. Na Redenção, Deus coopera com a liberdade de Maria e opera uma nova criação no silêncio do seu ventre.

Os movimentos do silêncio são os seguintes: preparação para a Palavra; encontro com a Palavra; o dom de si como resposta à Palavra; a conceção de um mistério que transcende as palavras, e o deleite amoroso no mistério. São os movimentos, «não apenas na Santíssima Virgem, a mulher do silêncio, mas também da Igreja, de modo especial na Liturgia. E estes movimentos configuram de forma permanente o coração de todo o fiel desejoso de participar na Liturgia da Igreja». (Boniface Hics, obra já citada, pp. 24-26)

A Igreja utiliza deliberadamente momentos de silêncio físico para plasmar e facilitar os distintos movimentos do silêncio pessoal. «Estes momentos estão pensados para cortar a corrente interior da experiência e fomentar um movimento no coração do fiel na sua relação com a Palavra. «Quanto melhor entendermos as razões que sustentam os gestos rituais do silêncio litúrgico, mais capazes seremos de corresponder a eles e de ser transformados pela Palavra na nossa adoração litúrgica». (P. 27)

A fé ajuda-nos a compreender que devemos o nosso ser à vontade de um Outro, pelo que a nossa vida é um dom, e todas as outras coisas que existem são também um dom. (P. 32).

Descobrir a dinâmica do dom da criação é um meio para encontrar o silêncio. Aliás, Deus quer que saibamos que é um Pai que nos ama e que, no silêncio, nos permite ver o nosso desassossego como um desejo de que Deus preencha as nossas necessidades. Jesus procurava muitos momentos de silêncio. Também a liturgia deixa sempre espaços de silêncio para que entremos mais profundamente nos sagrados mistérios que se tornam presentes nas palavras e gestos do rito. (Cf. P. 36) Aliás, a liturgia, com os seus gestos rituais e silêncios prescritos, proporciona-nos uma espécie de véu detrás do qual nos sentimos seguros para nos enfrentarmos com a realidade de nós mesmos, com todas as nossas fortalezas e debilidades. Guardini explica isto de modo maravilhoso: «a oração da Igreja não exibe nem deixa à intempérie os segredos do coração; sabe despertar as mais delicadas efusões e os anelos mais íntimos, mas, ao mesmo tempo, vela-os sabiamente e respeita a sua reserva. … a Liturgia conseguiu realizar esse esforço supremo, essa arte maravilhosa que permite à criatura exprimir em toda a sua plenitude o mais íntimo da sua vida espiritual e, ao mesmo tempo, velar discretamente os seus mais recônditos segredos. A alma pode expandir-se livre e jubilosamente sem o temor ou o risco de ver profanadas, em perigosa exibição, as suas misteriosas e não publicáveis intimidades». (El espíritu de la liturgia, Barcelona, 1946, pp. 78-79).

Se as pessoas não vivem o que se está a celebrar e não se criam condições para que a vivência realmente aconteça – e o silêncio forma parte integrante da liturgia - não podemos estranhar que as pessoas não se sintam motivadas e interpeladas a uma vivência que só o silêncio bem entendido pode favorecer e ajudar a crescer.

Carlos Vaz

Carlos Vaz

28 outubro 2026