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Fazer tudo o que é possível

A oratória política tem uma particularidade distintiva da de um orador comum. É a de que a frase que se ouve ou se lê pode ter vários sentidos, inclusive, o contrário, da de alguém que não se sente atraído pela arte de Maquiavel.

Vem isto a propósito das palavras do Ministro das Finanças a propósito do Orçamento de Estado para 2027 e, em concreto, das medidas propostas para o sector da habitação. Outros governantes já tinham tomado a mesma frase, para este e/ou outros assuntos, incluindo o Primeiro-Ministro, Luís Montenegro – "Foi feito tudo o que é/era possível" – como uma afirmação categórica, verdadeira e indiscutível. Evidentemente, não susceptível de verificação. Nunca ninguém conseguiu comprovar isso de "fazer tudo" o que se impunha, nem os mencionados responsáveis, nem nenhum dos que os precederam, o que não desculpa os primeiros.

A afirmação tem significado – e no caso do que discute por estes dias, isso tem sido claramente dito e escutado de quem anda no terreno e tem dado provas de trabalho efectivo na matéria em discussão, a construção de habitação social e/ou a preços acessíveis e controlados – uma mentira pegada ou, ao menos, uma forma de não explicar nada, de não estar aberto à discussão do problema ou a incorporar muito das boas soluções que têm apresentado várias das forças partidárias com assento parlamentar.

A prova maior do que nem tudo tem sido feito, está nas declarações feitas nos últimos dias por dois sociais-democratas de longa data: Isaltino de Morais, presidente da Câmara de Oeiras, e Luís Filipe Menezes, presidente da Câmara de Gaia. O primeiro, depois de afirmar que alguns membros do actual Governo tem uma "insensibilidade total" para o problema da habitação, que não têm a "mínima consciência da gravidade da situação [pensando] que o mercado é que ia resolver o problema", afirmou que está longe o ter feito tudo o que é possível se houver uma aposta na construção pública e na libertação de solos. O autarca tem obra feita e propõe-se fazer mais, construindo milhares de casas no concelho, havendo promotores imobiliários dispostos a contribuir em parceria com a autarquia. Conclui dizendo que "a habitação não é uma questão ideológica, mas [que] em Portugal é tratada assim". O segundo pediu que Montenegro despertasse o Ministro Nuno Melo, distraído ou surdo, não se sabe, para que desbloqueasse um terreno militar em Gaia, para ali construir alguns milhares de casas. Entretanto, Montenegro anda calado como um rato, não sei se à volta do queijo ou preso em alguma ratoeira em que se meteu e agora não arranja saída.

A verdade é que o problema existe e não pode passar só pelo mercado, vai ter que haver muito dinheiro público injectado. Doutra forma, o discurso do Executivo será só treta e vai levar a mais manifestações, talvez mais movimentadas, a colocar em maus lençóis quem governa à bastonada. Sim, as manifestações têm sido bem pacíficas e o Governo tem usado de força e violência excessiva, igual à usada noutras geografias onde as manifestações são bem diferentes. Nesta tarde de Domingo em que escrevo esta e outras das próximas crónicas pensei para mim: Estranho, este Governo! Por que será que permite outras tendas, camas de cartão e verdadeiros catres debaixo de claustros e pontes, entradas de lojas comerciais e bancos de jardim públicos de algumas ruas e avenidas, até bem perto onde trabalham os governantes?


 

Conclusão: o Governo está bem longe de fazer tudo o que é possível. Acho mesmo que anda a prejudicar o que antes foi feito, ainda que possa ter sido pouco.

Luís Martins

Luís Martins

27 outubro 2026