Agora que novo ano letivo se está a iniciar, preciso é que se façam algumas reflexões, necessárias e urgentes, sobre as questões educativas e, consequentemente, sobre a organização, logística e funcionamento dos estabelecimentos escolares; e, mormente, se diga afincadamente o que não tem sido dito, debatido e escalpelizado sobre assunto tão candente e imprescindível a um futuro nacional de desenvolvimento social e cultural.
Por exemplo: é preciso proclamar bem alto e cada vez com maior empenho que
o professor de hoje tem de pôr à prova a sua dimensão humanista cada vez mais premente num mundo onde imperam o egoísmo, a desigualdade, a injustiça e a guerra; e muito mais e com maior empenho, pois, para além das suas qualidades e aptidões de professor-instrutor, ele terá de cultivar e se valer, em todas as circunstâncias, das prerrogativas de professor-educador.
As crianças e os jovens chegam hoje às nossas escolas, cada vez mais sobrecarregados de problemas que às famílias muitas vezes escapam, quer por deficiências de orientação educacional, quer por ausência de tempo e disponibilidade dos pais para ouvirem, dialogarem e orientarem os filhos) e, então, o professor começa a sentir que os seus alunos necessitam muito de falar, de desabafar, porque não têm em casa o ambiente e o tempo de diálogo necessários, como, igualmente, de transferirem para ele a disponibilidade, o anseio, a exigência de orientação ajuda e do ritmo existenciais.
E, assim, casos há, por exemplo, de crianças que passam dias sem falar com o pai (quando este chega a casa. já eles dormem e quando sai, de manhã, ainda não acordaram) e pouco falam com a mãe que cedo também sai para o trabalho e quando chega a casa, no final do dia, ainda tem as lides caseiras para completar e, pior ainda, o que dizer dos filhos de pais separados, divorciados ou desavindos, que são os que, sem dúvida, mais concentram no professor a carga emocional e a tensão psíquica, pois são alunos difíceis, desadaptados e ausentes.
Pois é, muitas vezes estas crianças e jovens não encontram no professor o equilíbrio emocional e o complemento afetivo que em casa lhes falta e tão necessário é à sua afirmação pessoal e social, bem como ao crescimento saudável e harmonioso da sua persona1idade; sobretudo nele não veem o animador, o companheiro, o amigo mais velho que tanta falta lhes faz em tantos momentos indizíveis de solidão e medo.
Penso mesmo que pelas nossas escolas passa hoje e mais do que nunca o fracasso da necessária educação integral das nossas crianças e jovens, já que às família tal tarefa cada vez mais se lhe escape e ao professor devia caber, por direito próprio, o papel, embora difícil e ingrato, de os substituir em tantos casos, integralmente, para o que lhe terão de sobrar as qualidades e aptidões de confidente, conselheiro e animador… atributos próprios e inegáveis de pai e mãe.
Aqui fica, pois, este simples e despretensioso apontamento para que os responsáveis institucionais sintam, se ainda o não sentiram nunca, que este é um inefável e grande problema que urge, urgentemente, resolver e cuja resolução tem que passar, obviamente, por dar aos professores as condições mínimas e porque necessárias (institucionais, económicas, vocacionais e formativo-informativas) para o pleno, bom e cabal desempenho desta sua imprescindível e inefável missão.
E este é, imprescindivelmente, a meu ver, um enorme, necessário e candente desafio socioeducativo a ter em conta na luta contra o insucesso escolar e educativo que, obviamente, afeta e desprestigia a Educação Nacional) e, inclusive, se apresta como uma chamada de atenção aos pais para que assumam a sério, sem complexos, sem tibiezas e sem rodeios, este seu incumbente trabalho e, sem dúvida, esta nobre missão de primeiros educadores de seus filhos, cuja incumbência por eles assumida foi na lógica da sua desejada e meritosa função maternal e paternal.
Então, até à próxima Nortada.