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Por Entre Linhas e Ideias

E se as pedras falassem? No passado fim de semana, ao visitar familiares em Cabeceiras de Basto, as conversas acabaram, como tantas vezes acontece, por nos levar a histórias antigas que recordamos quando regressamos a esses lugares. Uma delas voltou à memória e fez-me pensar nas pedras, esses seres inanimados que tantas vezes desprezamos quando dizemos que alguém tem «um coração de pedra».

Caros leitores, a história leva-nos até Alvite, perto da Portela do Couto, onde se contava que os mouros tinham escondido um boi de oiro debaixo de uma enorme pedra, na Serra Dourada. Quando era criança, aquela história fascinava-me. Olhava para os montes à procura da pedra certa e imaginava o tesouro escondido debaixo dela. Nunca encontrei o boi de oiro, naturalmente, mas confesso que ainda hoje, quando passo por aquelas terras, a memória me devolve aquela curiosidade infantil.

Aliás, desde sempre as pedras alimentaram a imaginação humana. Segundo um antigo mito grego, Deucalião e Pirra sobreviveram ao dilúvio enviado por Zeus e receberam do oráculo uma indicação estranha. Deveriam lançar para trás das costas os «ossos da mãe». Perceberam que a mãe era a Terra e que os seus ossos eram as pedras. Das pedras lançadas por Deucalião nasceram homens e das lançadas por Pirra nasceram mulheres. E assim, das pedras nasceu uma nova vida.

E quem não se lembra dos famosos Flintstones? Esta fantástica série de animação, que marcou várias gerações, também nos traz à memória a Idade da Pedra. Para os mais novos, recordo que Fred, Wilma, Barney e Betty viviam num mundo divertido onde quase tudo era feito de pedra. Até os automóveis andavam à força dos pés! 

Na realidade, a pedra acompanhou a aventura humana desde os primeiros utensílios aos grandes monumentos. Stonehenge continua a intrigar-nos e as pirâmides do Egito fascinam-nos pela dimensão dos blocos, pelo modo como foram transportados e pela precisão com que foram colocados. Também a civilização maia nos deixou impressionantes templos e pirâmides de pedra.

Por cá, também temos pedras que fazem caminhos. A Geira romana, entre Braga e Astorga, conserva marcas de uma estrada por onde passaram soldados, comerciantes e viajantes. A Europa também se foi fazendo assim, pedra sobre pedra. Marco Aurélio escreveu nas Meditações que «o que está no caminho torna-se o caminho».

Continuando a falar de pedras, outras pedras perduram com história. No Vale do Côa, mãos de há milhares de anos gravaram animais nas rochas. Foram-se os autores, mas as pedras perduram.

A literatura também viu nas pedras motivo para criar histórias, alimentar a imaginação e fazer-nos refletir sobre a vida. Saramago pôs a Península Ibérica a navegar em A Jangada de Pedra. J. K. Rowling recuperou em Harry Potter e a Pedra Filosofal o velho sonho alquímico do ouro e da imortalidade. António Gedeão, por sua vez, fez da Pedra Filosofal, cantada por Manuel Freire, uma das mais belas celebrações do sonho, lembrando-nos que «o sonho comanda a vida». E já agora, permita-me o leitor este pequeno desvio, continuo à espera de ver Gonçalo M. Tavares receber o Nobel da Literatura. Não foi ainda desta vez.

Entretanto, a sabedoria popular também foi deixando pedras pelo caminho. Dizemos que «água mole em pedra dura tanto bate até que fura», falamos de «pedras no sapato» e lembramos que «quem tem telhados de vidro não deve atirar pedras».

Mas há pedras mais simples que me emocionam. São as dos velhos muros de pedra solta das nossas aldeias, encaixadas sem cimento pelas mãos dos nossos pais e avós. Delimitam campos e guardam trabalho e memória e quando uma dessas pedras cai, parte da memória daquela terra vai com ela.

Por isso, meus amigos leitores, da próxima vez que encontrarem uma pedra no caminho, olhem para ela por um instante e reflitam:

“As pedras ficam quando nós passamos, e talvez a verdadeira sabedoria esteja em aprender aquilo que o tempo nelas deixou.”

Eugénio Oliveira

Eugénio Oliveira

14 outubro 2026