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Abaixa-te, ó Serra d’Arga

No Alto Minho, a alma é verde, a vocação atlântica e fronteiriça, o património singular. Dos rios ao mar, da ruralidade à indústria e da tradição à modernidade, o território surpreende pela diversidade, visível da Senhora do Minho, do Cervo e do Tibo.

Rios e ribeiras estruturaram o povoamento, as comunicações, a agricultura e outras atividades económicas. O Minho português, o grande rio-fronteira de João Verde, espraia-se até à foz, abraçando a Boega e os Amores de Rentes de Carvalho. O Lima, o rio-paisagem, corre hoje com caudais regulados no Alto Lindoso e no Touvedo. O Âncora é curto, mas o forte declive ecoa a voz livre de Fina da Armada. O Coura rasga um vale encaixado de natureza preservada. O Vez molda o panorama do Sistelo que impressionou Saramago. O Laboreiro tem a expressão telúrica dos granitos da Peneda.

Estas paisagens muito testemunharam. Primeiro, grupos do Paleolítico e os seus utensílios acheulenses; depois, os celtas e a cultura castreja. Os romanos chegaram em 138 a.C., quando Décimo Júnio Bruto atravessou o Lima sem esquecer o nome de nenhum soldado. Da fundação da nacionalidade, emergem o foral de Ponte de Lima (1125), o Recontro de Valdevez (1140/41) e Afonso Henriques na Cabração. A Idade Média foi ainda marcada pelas praças-fortes que fixaram a fronteira e por episódios como a tomada do Castelo do Neiva pelo Condestável. Na Guerra da Independência (1640-68), reforçaram-se fortes costeiros e fluviais. No século XIX, D. Maria II elevou Viana do Castelo a cidade (1848) e chegou a ferrovia (1878-82). A epopeia do bacalhau, de que o Gil Eannes foi protagonista, terminou na década de 1970.

Na coexistência entre um tecido industrial, agricultura de minifúndio e aldeias, vilas e cidades históricas, a paisagem tem sido protegida e valorizada. Para além do norte do Parque Nacional Peneda-Gerês, são referência as Lagoas de Bertiandos, o Corno do Bico e o Parque Natural Litoral Norte. O património monumental é vasto nos centros históricos urbanos e inclui outras preciosidades como os templos românicos de São João de Arga, Bravães, Sanfins, Longos Vales, Paderne e Fiães, o Convento de Refoios, a fortaleza de Valença, os castelos de Melgaço, Castro Laboreiro e Lindoso, as pontes medievais de Ponte de Lima e Ponte da Barca e os espigueiros do Soajo e Lindoso. Dezenas de igrejas e santuários celebram uma religiosidade forte que evoca da Boa Morte ao Socorro e da Bonança à Paz.

As festividades são manifestação maior da alma minhota. A Senhora da Agonia e as Feiras Novas envolvem centenas de milhares de pessoas, mas muitas são as romarias notáveis deste território que, nos trajes e na ourivesaria, conferem centralidade à mulher, espelhando uma forte matriz matriarcal. Francisco Sampaio compreendeu o caldo de cultura de um turismo autêntico e sustentável, apoiado numa gastronomia que vai do mar ao sarrabulho e à lampreia e numa oferta hoteleira diferenciada, onde pontificam os solares senhoriais.

Os dez concelhos encaram conjuntamente o futuro. Nos Arcos de Valdevez, terra do inventor Padre Himalaia e do primogénito dos Lima, Fernão Anes, a indústria afirma-se entre o prado e a montanha. Em Caminha, a foz do Minho alarga horizontes fluviais, marítimos e fronteiriços, associados a personalidades tão diferentes como Sidónio Pais ou o surrealista António Pedro. Em Melgaço, a raia é omnipresente e não esquece a façanha de Inês Negra, estórias de contrabando e o legado de Jean-Loup Passek. Monção honra Deuladeu Martins, partilha o quotidiano com a irmã Salvaterra e diversifica a economia. Na rural Paredes de Coura, visitada por Bernardino Machado e Aquilino Ribeiro, o setor secundário vai do calçado às vacinas e os ecos do festival do Tabuão vibram todo o ano. Ponte da Barca, na fralda da Serra Amarela, conjuga natureza e paisagem, celebradas por Diogo Bernardes. Em Ponte de Lima, que gosta de ser vila, cruzam-se rotas da vida e da economia, entre os Caminhos de Santiago, a tradição e a poesia de António Feijó. Valença, baluarte e eurocidade, combina agricultura e atividade empresarial sem esquecer a memória de São Teotónio nas origens do reino. Viana une mar, indústria e cultura, com Santa Luzia a olhar o encontro entre cidade, Lima e Atlântico, que Pedro Homem de Mello e Couto Viana ajudam a interpretar. Vila Nova de Cerveira projeta criatividade através da Bienal de Arte Contemporânea e do legado artístico de José Rodrigues.

Os últimos 50 anos conheceram quatro ciclos de investimento. De 1975 a 1985, a modernização básica de um território ainda muito rural: estradas, eletrificação, água, equipamentos públicos. Até 2000, a entrada na CEE permitiu melhores acessibilidades, saneamento, renovação urbana e empreendimentos hidroelétricos. De 2001 a 2020 as prioridades foram as infraestruturas rodoviárias (A3, A28, A27) e ferroviárias, o tecido empresarial, o turismo e a valorização ambiental. Na presente década, o investimento voltou-se para digitalização, transição energética, mobilidade sustentável e modernização empresarial. O PRR trouxe uma nova ponte sobre o Lima, melhores acessos no Neiva e investimento social. Contudo, a rede rodoviária limita o desenvolvimento, nomeadamente no eixo do rio Minho, e a ferrovia não acompanha o metabolismo de uma fronteira que sempre uniu as populações, mesmo em tempos de conflito.

Na agricultura, vão longe os tempos do linho e o milho perdeu a importância de outrora. O Vinho Verde destaca-se com o Alvarinho em Monção e Melgaço e o Loureiro no Vale do Lima. A raça Cachena é determinante para a economia das comunidades do Parque Nacional. A indústria remonta à fábrica de Louça de Viana do tempo do Marquês do Pombal. A construção naval e, mais tarde, a celulose, marcaram a segunda metade do século XX. O grande crescimento das últimas décadas, num contexto transfronteiriço, levou a uma diversificação que vai do automóvel aos barcos de recreio e das energias renováveis à defesa. Viana e Cerveira figuram entre os principais concelhos exportadores do Norte.

A emigração foi marcante: nos séculos XVIII e XIX para o Brasil, no XX, para França, Alemanha e Andorra. Evidenciam-na palmeiras e araucárias, bem como dissonantes azulejos exteriores. Hoje, a imigração é expressiva e sentida na crescente população escolar.

O ensino superior chegou através do Instituto Politécnico, atualmente Universidade Politécnica de Viana do Castelo. Presente em vários concelhos, contribui para a qualificação, a investigação aplicada e a internacionalização da economia.

O futuro requer mais inovação e alinhamento com a estratégia da Comunidade Intermunicipal: viver, visitar e investir. Exige conciliar qualidade de vida e ambiente; património, cultura e tradições; e uma economia aberta ao mundo.

Entre a montanha e o Atlântico, entre Norte e a Galiza, “Ser daqui” no Alto Minho é preservar a identidade e construir a modernidade.

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António Cunha

14 outubro 2026