«… para Deus, o importante não é a missa em si mesma, mas aquilo a que nos conduz: que a nossa vida, durante a semana, seja o reflexo concreto do que celebramos». (Chauvet, p. 130). É por isso que o ‘rito de conclusão’ é um rito de ‘envio’ com várias dimensões: paroquial, pessoal e missionária. Na dimensão paroquial, podem entrar as informações que manifestam como a comunidade cristã local se implica na diaconia, nas infraestruturas materiais e financeiras e nos diversos acontecimentos que marcam a vida paroquial ou diocesana. Na dimensão pessoal, para que a nossa vida, inserida, por meio da comunhão, na de Cristo, seja, através do cuidado do próximo – justiça e caridade – o ‘sacrifício espiritual’ e o ‘verdadeiro culto que Deus espera’. A dimensão missionária implica sermos portadores da Palavra, testemunhas do Evangelho, missionários: isto passa pela palavra e sobretudo pela vida. A fé cristã tem 3 pilares: Palavra, sacramentos e vida ‘ética’. É nesta vida ética que todo o sacramento se deve manifestar. (Cf. Chauvet, p. 131)
Afinal, que significa ser cristão? Não é tanto uma questão de generosidade, mas que torne realidade em mim que a missa muda a minha vida. Tendo sempre bem presente que a autenticidade da fé cristã não se pode medir em termos de generosidade moral, porque a fé não é uma simples forma de vida, nem uma moral. A missão dos cristãos não é a de serem moralizadores, tentando dar lições aos outros. A qualidade ética da vida quotidiana funda-se, como o manifesta a comunhão na missa, na graça de Deus em Cristo. Tal graça recebe-se de diferentes maneiras, em função dos dons e carismas, como o indica bem a parábola dos talentos. Para Deus, o importante é que invistamos o melhor possível os dons que nos deu para colaborarmos na edificação do Reino. Tudo isto resulta bem claro na I Ped 4, 10-11: «cada um de vós ponha ao serviço dos outros o dom que recebeu». Ou seja, toda a gente está obrigada a entregar-se, à sua maneira, ao serviço dos últimos. Os mais generosos não são necessariamente os mais cristãos.
O objetivo da missa é unir a fé cristã suscitada pela escuta da Palavra com a vida quotidiana, que se deve configurar cristãmente com essa fé. A missa deve entender-se como um ponto de passagem que é, ao mesmo tempo, ‘obrigante’ e ‘obrigado’. A gratidão não se deve confundir com uma obrigação, que é da ordem jurídica. Aqui trata-se da gratidão em sentido antropológico: todo o dom oferecido a outro coloca esse outro na obrigação de responder, como tão bem o exprime o nosso «obrigado». A missa desempenha a função de reconhecimento a Deus pelo dom do profundo amor que nos manifestou em Jesus, seu Filho. ‘Obrigado’, no sentido de uma condição necessária, aquilo sem o qual, porque se é a graça de Deus que faz verdadeiramente cristã a nossa vida ordinária, e não os nossos atos de generosidade, a comunhão com Cristo é a sua fonte principal. E, como o refere Sacrosantum Concilium 10, é também o cume da vida cristã. Ou seja, alimentada pela sua fonte divina, a vida cristã converte-se em ‘sacrifício espiritual’ pelo qual Deus é glorificado. ‘Espiritual’ quer dizer realizado pelo Espírito Santo, como tão bem o assinalam as orações eucarísticas: «que o Espírito Santo faça dos que vão comungar ‘uma vítima viva para louvor da tua glória». (OE, IV)
Os nossos comportamentos quotidianos estão chamados, pela sua união com Cristo através do Espírito Santo, a transfigurarem-se de algum modo: de atos e comportamentos mais ou menos bons moralmente, converterem-se numa liturgia espiritual. Tudo isto se inscreve na lógica da Incarnação de Deus na nossa humanidade: «A fé em Deus não é cristã por ser humana; mas sim: não pode ser cristã, se não for humana e humanizadora
. A fé em Deus, tal como se revelou desde Abraão em Cristo: humaniza! Pelo menos, devia fazê-lo. Acrescenta Chauvet: «Por isso, continuo a ser cristão e estou orgulhoso de o ser». (p. 136). Humildemente orgulhoso, porque estou consciente de levar o tesouro do Evangelho em vasos de barro. Esta imagem quer-nos dizer que nunca estamos à altura da mensagem, mas, apesar disso, Deus atreve-se a confiar-no-la, precisamente porque não espera que sejamos dignos. É isso que somos convidados a professar imediatamente antes de receber a comunhão: «Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma palavra e serei salvo».
Pessoalmente, estremeço quando verifico que, em muitas das nossas assembleias, estas palavras, que antecedem imediatamente a comunhão individual, são ditas a correr e sem qualquer chama de ardente fé, amor e verdade! Não admira que tantos e tantas digam que a missa não lhes dá nada e em nada os modifica. Todavia, não podemos baixar os braços, porque há como que uma música de fundo que sempre poderemos escutar se o silêncio for nosso inseparável companheiro: «a certeza de que, se Deus é Deus, é em Jesus Cristo que se revelou plenamente». (Cf Chauvet, o.c. p. 138)
Com a ajuda do livro recente de Boniface Hicks, na versão espanhola de 2025: «El poder oculto del silencio en la misa – Una guia par encontrar a Cristo en la liturgia», tentaremos apresentar as principais pistas de reflexão que nos convençam a todos a saber e viver este poder inaudito do silêncio.