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CR7 sai quando quer. Eu, continuo convocado…

CR7, agora com 41 anos, decidiu ter chegado a hora de deixar o balneário da Seleção Nacional. Sentiu que o atual selecionador não respeitou o seu percurso.

Quando ele chegou à Seleção, já eu geria balneários de Educação Física, em Vila Verde há 16 anos. Daí para cá, ainda não deixei de o fazer. Mas, há mais diferenças significativas nos nossos percursos.

Para começar, tenho quase o dobro do “tempo de serviço” dele. E, sobretudo, há uma coisa que aceitei há já algum tempo: com o avançar da idade, não é suposto continuar a jogar os mesmos minutos. Aliás, é o próprio Ministério da Educação (ME), o nosso Mister, que, mantendo-nos na Escola o mesmo número de horas semanais, entende que já não temos a mesma resiliência para “jogar” os mesmos minutos “contra” tantos alunos. Diminui o número de turmas, mas coloca-nos a realizar outros trabalhos que contribuem igualmente para a melhoria de funcionamento das escolas.

No caso do CR7, o seu Mister, ao que parece, também entendeu o mesmo: que ele já não tem arcaboiço para estar tantos minutos em campo, mas esqueceu-se de legislar (com ele) convenientemente sobre o assunto.

No meu caso, a diminuição do número de turmas correspondeu a um acréscimo de cargos de liderança: Coordenador do Desporto Escolar, Diretor de Turma, Provedor da Disciplina. Futebolisticamente falando, passei a ser um “professor” polivalente.

No caso do CR7, o seu Mister parece ter chegado à mesma conclusão: já não tinha arcaboiço para jogar todos os minutos. Pode entrar-se aos 60, aos 70 ou aos 80 minutos. Pode até aquecer-se durante 30 minutos e acabar o jogo sem entrar. Só que, ao contrário do ME, não parece ter encontrado a melhor forma de gerir a situação.

O treinador ouviu o jogador dizer, numa das primeiras intervenções públicas, que estava preparado para jogar 90 minutos, 45 minutos, entrar no decurso do jogo ou nem sequer entrar e… acreditou. O jogador ouviu o treinador dizer que, num determinado jogo, não iria entrar de início, mas depois teria tempo de jogo - 20 a 30 minutos, ao que consta – e… também acreditou. Acreditaram ambos… mal.

Se ambos colocassem os interesses da Seleção acima dos respetivos egos, provavelmente o assunto teria ficado resolvido no balneário, sem necessidade de prolongamento, penáltis ou conferências de imprensa. Assim, não. O “meu ego é superior ao teu” acabou por prevalecer e, curiosamente, “ganharam” os dois. Um, Jesus, ao livrar-se de um “problema” – sim porque, queiram ou não os seus acérrimos defensores, nestes últimos tempos, a presença de CR7 no onze nacional aparentava mais ser problema do que solução. O outro, CR7, fez aquilo que sempre disse: sairia quando e como quisesse.

Já eu, com muito mais tempo de serviço e sentindo também o peso da idade, continuo sem poder sair quando quero. Continuo convocado para gerir balneários e conversar com “alunos” que se portam mal noutros “campos”. Aguardo pacientemente que “o árbitro” apite, apenas e só quando atingir a idade permitida por lei. 

Ou seja, ainda me faltam alguns milhares de “minutos” de compensação…para abandonar o terreno de jogo.


 

Carlos Mangas

Carlos Mangas

2 outubro 2026