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Pecado contra a natureza e contra o criado

No passado dia 2 de setembro, a Santa Sé, sob proposta da Comissão Teológica Internacional, publicou um documento intitulado “Cuidar da nossa Casa Comum: resposta responsável e fraterna ao Deus Trinitário”. A referida comissão é um órgão consultivo do Dicastério para a Doutrina da Fé e situa-se no âmbito de um instrumento de ajuda sinodal ao Santo Padre. Estuda problemas e questões doutrinais atuais, com profundidade e competência, para que o magistério da Igreja se formule de um modo devidamente estudado e refletido. É formada por teólogos do mundo inteiro, das mais variadas correntes teológicas, que o Santo Padre escolhe sob proposta do Prefeito do Dicastério.

Não é aqui o lugar para resumir quanto este texto traz de novidade. Sublinho, só e apenas, que, na esteira e continuidade de tudo quanto o Papa Francisco ofereceu à Igreja na Laudato Si', documenta-se que a questão ecológica terá de ser acolhida e assumida como uma questão teológica. Isto significa que o modo como nos relacionamos com o criado manifesta a relação que temos com Deus. A reflexão parte da criação do homem “à imagem e semelhança de Deus para que domine sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos e sobre todos os répteis que rastejam pela terra” (Gn 1, 25) e de que “Deus, vendo a sua obra, considerou-a muito boa” (Gn 1, 31).

Aí se refere que a atual crise ecológica, “sem precedentes, com manifestações e repercussões alarmantes, está a exigir uma solução científica e técnica”, mas sobretudo “uma mudança nos valores culturais”. O momento atual “exige de todos, a começar por aqueles que são responsáveis pela vida pública, uma ação urgente em favor da sustentabilidade do planeta e da habitabilidade da Casa Comum”. Não se trata apenas de uma exigência ética, mas, sobretudo, teológica. E é neste sentido que a Comissão Teológica sugere que o falar da conversão ecológica se transforme em “responsabilidade de pecado contra a criação e contra o criado”. É uma verdadeira questão teológica que terá de ocupar um outro lugar na catequese e na evangelização da Igreja. A relação com Deus Criador passa pela relação que, quotidianamente, se estabelece com o mundo da natureza.

O documento analisa muitas outras questões que não pretendo colocar nesta pequena reflexão. Olho para a parte final, onde se refere que esta nova orientação doutrinal terá de entrar nas preocupações das outras religiões e confissões religiosas.

É isto que já vem acontecendo. Na verdade, em 1989, o Patriarca Ecuménico Dimitrio I determinou que o primeiro de setembro seria o “Dia da Criação” para os cristãos ortodoxos. Mais tarde, a iniciativa alargou-se a outras confissões religiosas e o Conselho Ecuménico das Igrejas prolongou a celebração até ao dia 4 de outubro, dia de São Francisco.

O Papa Francisco, no dia 6 de agosto de 2015, poucos dias após a assinatura da Encíclica Laudato Si' (de 24 de maio de 2015), acolhe esta mesma iniciativa na Igreja Católica, fazendo com que o 1 de setembro seja o “Dia de Oração pelo Cuidado da Criação”, e que todo o mês de setembro, até ao dia 4 de outubro, seja vivido como o “Tempo da Criação”.

O Papa Francisco, quando introduziu este “Dia” e este “Tempo”, enfatizou que deveria ser uma oportunidade anual para que os cristãos e as comunidades se conscientizassem da “sua vocação de guardiões da criação, dando graças a Deus pelo maravilhoso dom do criado e pedindo perdão pelos danos causados”.

Para a décima primeira edição desta iniciativa, o Papa torna-se ainda mais explícito: “Ao celebrarmos este Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, somos mais uma vez convidados a contemplar o dom da vida e a valorizar a terra que a sustenta, pois estas são formas concretas de louvar o nosso Criador”. “Desta forma, somos chamados a salvaguardar os muitos ecossistemas que nos foram confiados: os ecossistemas da criação, das relações humanas e do próprio coração humano”.

A Igreja está a percorrer caminhos novos no anúncio da sua perene mensagem. Talvez no passado o pecado da Igreja tenha sido o de negligenciar esta dimensão da sua doutrina. Quando a Comissão Teológica sugere que um pecado pode estar na relação com o mundo criado, está a propor que um novo percurso seja efetuado no anúncio persistente de uma doutrina que tem a sua origem nas primeiras páginas da Bíblia, mas que urge colocar nas preocupações pastorais. O criado é um dom que deverá ser permanentemente acolhido com muita gratidão que, por ser dom, exige uma responsabilidade permanentemente renovada. Deus é Senhor e Criador e tornou-nos “guardiões” desse mundo por Ele criado.

D. Jorge Ortiga

D. Jorge Ortiga

27 setembro 2026