O Prémio Nobel da Paz deste ano ainda não foi atribuído – sê-lo-á no dia 9 de Outubro –, mas as propostas para o do próximo ano já começaram a ser apresentadas. Secundando uma proposta do filósofo Eugenio Mazzarella, o diário católico italiano Avvenire quer que, em 2027, o Nobel da Paz seja entregue às crianças de Gaza. É que elas são o símbolo da infância violentada em todo o mundo. Um “sì” (“sim”) ou um “aderisco” (“adiro) enviados para o e-mail petizione.gaza@avvenire.it são o modo mais simples de apoiar esta iniciativa. A contabilidade mais recente indica que 22 mil pessoas já quiseram homenagear estas vítimas inocentes da barbaridade israelita.
Recordando o sofrimento destas meninas e meninos, o Avvenire lembra que, desde Outubro de 2025, quando entrou em vigor um cessar-fogo na Faixa de Gaza, tem morrido uma criança por dia. E não param de morrer. E as que sobrevivem, escapando à desnutrição, às doenças, à água suja, aos tratamentos inexistentes, permanecem à espera do fim da violência que lhes foi prometida, assinala o Avvenire. Foi precisamente em nome dessa promessa que o jornal relançou a proposta de Eugenio Mazzarella, professor de Filosofia na Universidade Federico II de Nápoles, ex-deputado do Partito Democratico, de candidatar as crianças de Gaza ao Prémio Nobel da Paz.
A proposta tem encontrado o apoio, formal ou informal, de dezenas de milhares de pessoas. O cardeal Pierbattista Pizzaballa, Patriarca Latino de Jerusalém, afirmou recentemente a utilidade de qualquer iniciativa que ajude a chamar a atenção para o que se passa em Gaza – não sendo, mesmo assim, presumível que o “arquitecto de um genocídio”, repetindo os termos usados pelo presidente da Câmara de Nova Iorque para qualificar o chefe do governo israelita, se modere e se torne menos letal para as crianças.
“Reconhecer as crianças de Gaza com o Prémio Nobel da Paz significa ainda valorizar a palavra paz”, escreveu o padre Ibrahim Faltas, vigário da Custódia da Terra Santa, manifestando o seu apoio à iniciativa.
O Avvenire salienta que, todos os dias, documenta o que acontece no Médio Oriente e que fala, constantemente, sobre “os direitos negados a menores onde quer que estejam no mundo: não há apenas as crianças de Gaza entre as vítimas inocentes das guerras: há as crianças israelitas mortas na sangrenta operação do Hamas no dia 7 de Outubro de 2023 e as que morreram depois nas prisões dos terroristas. Há as crianças ucranianas e russas, há as crianças iranianas e sudanesas”. Se o Nobel promovido pelo jornal fosse concedido, reconhecer-se-ia a infância que sofre com as guerras, em todos os tempos e continentes. “Porque o que é verdade em Gaza – o sofrimento inocente, a violação do direito de cada criança a ser amada e protegida e de não se tornar um alvo indefeso do ódio e da violência por parte dos adultos – vale em todo o mundo e em qualquer época histórica”.
“As crianças de Gaza”, escreveu o padre Ibrahim Faltas, director das escolas da Custódia da Terra Santa, numa mensagem enviada ao Avvenire, “merecem o Prémio Nobel da Paz porque são elas próprias o significado da palavra paz, porque sofreram as consequências no corpo e na mente das acções dos adultos inconscientes e irresponsáveis, porque sentiram e viram o horror da violência, porque sofreram pela morte daqueles que lhes deram a vida, porque perderam o sorriso do tempo que é o de brincar, pela falta de instrução e de frequência de dois anos de escola, porque perderam os belos anos da infância. Reconhecer o sacrifício das crianças de Gaza é um acto de verdade e justiça”. Este reconhecimento é, para o sacerdote, “o sinal indelével de quem acredita firmemente na paz”.
Em Itália, a ideia de conceder o Nobel da Paz às crianças de Gaza não é nova, mas agora parece estar a recolher um apoio mais amplo. O Avvenire refere que, desde que a proposta foi apresentada no dia 8 de Agosto, tem recebido milhares e milhares de assinaturas de pessoas comuns, mas também de políticos conhecidos, de autarcas, de religiosos.
Todos os signatários “pretendem dizer ‘basta’”, afirmou Antonella Mariani, jornalista do Avvenire, onde coordenou as campanhas Nós, Afegãs e Mulheres pela Paz. Numa entrevista concedida à agência Pressenza, deu conta de perguntas que muitos formulam: “O que posso eu, apenas eu, fazer para expressar o meu não à guerra e o meu desejo de paz? Como posso exprimir o sentimento de proximidade para com as vítimas inocentes sobre as quais nem sequer voltamos a ouvir falar?” Para Antonella Mariani, a resposta a tais interrogações está a ser dada pela comunidade de pessoas reunidas em múltiplas iniciativas, como esta que promove a candidatura das crianças de Gaza ao Prémio Nobel da Paz. Trata-se, diz a jornalista, de “uma comunidade que não vive apenas da informação e quer participar, sentir-se participante, ‘fazer parte’”.
Quem quiser apoiar a iniciativa pode fazê-lo enviando um e-mail para petizione.gaza@avvenire.it. Escrever “sì” ou “aderisco” basta.
Nota: uma versão deste texto foi publicada no 7 Margens.