Este artigo faz parte de uma série cujo propósito é desmistificar o capitalismo. Aqui explicamos como operam os preços num mercado livre. O capitalismo e o mercado livre são conceitos indissociáveis, em que o segundo funciona como uma espécie de "sistema nervoso" do primeiro. São os preços livres – e não decretos estatais – que coordenam as ações de milhões de indivíduos.
Os preços não resultam da mera ganância de empresários, nem podem ser decididos eficazmente por decreto. Nascem do encontro espontâneo entre a "oferta" (quem vende e os seus custos) e a "procura" (quem compra e o valor que atribui ao bem). O preço de equilíbrio é o ponto exato onde a quantidade que os vendedores querem vender coincide com a que os compradores desejam comprar. Como a realidade muda a cada segundo, os preços também se movem continuamente, em direção a esse equilíbrio.
Para muitos, é um mistério como uma economia extraordinariamente complexa funciona sem direção central. Diz-se que o último presidente da União Soviética, Mikhail Gorbachev, perguntou à primeira-ministra britânica Margaret Thatcher: "Como garante que as pessoas recebem alimentos?" Sucede que ela não precisava de se preocupar com isso; os preços faziam esse trabalho sozinhos. Apesar de o Reino Unido não produzir alimentos suficientes para o próprio consumo há mais de um século, a sua população estava muito melhor alimentada do que a da União Soviética. Os preços encarregavam-se de trazer os alimentos de outros países.
Para entender como isto acontece, imagine que uma geada inesperada destrói metade das plantações de café no Brasil. A oferta cai abruptamente. Instantaneamente, o preço do café sobe nos supermercados mundiais. Esse número colige e transmite uma enorme quantidade de informação dispersa: avisa os consumidores para racionarem o café e sinaliza a produtores de outros países que vale a pena investir na colheita de café. Ninguém precisou de ler um relatório sobre o clima no Brasil; o preço transmitiu a mensagem em tempo real.
O mesmo mecanismo aplica-se à habitação. O valor de uma casa ou de uma renda não nasce do vazio ou da arbitrariedade de proprietários. Se o preço por metro quadrado numa freguesia dispara, o mercado está a emitir um sinal de trânsito límpido: "falta habitação aqui" ou "esta zona está a ser mais procurada". Quem procura casa percebe que terá de ajustar expectativas (procurar áreas limítrofes ou tipologias menores); quem tem capital percebe que é ali que deve construir ou reabilitar.
Num mercado livre, cada alteração de preço induz uma mudança imediata no comportamento dos agentes económicos, desencadeando um efeito dominó que reajusta milhares de outros produtos e serviços até restabelecer o equilíbrio. É um processo de propagação de informação que se efetua de forma automática, contínua e global. Infelizmente em Portugal os mercados de construção e arrendamento não são livres, de modo que não evoluem para um equilíbrio.
Quando são livres, os mercados são autocorrigíveis e autocalibráveis. A escassez de um bem — que gera um preço considerado "muito alto" — não é um problema eterno, mas sim uma oportunidade que os agentes económicos correm para aproveitar. Em mercados livres, o preço alto transporta em si a sua própria solução.
No próximo artigo abordo a distição entre capitalismo e "crony capitalism".