No passado dia seis de agosto, a Juventude Franciscana reuniu-se em Assis, num encontro que congregou jovens de todo o mundo empenhados em dar continuidade ao caminho iniciado por Francisco de Assis. Tratou-se de uma celebração integrada no Ano Santo Franciscano, decretado para assinalar condignamente os oitocentos anos da morte do santo de Assis.
Os jovens escolheram como slogan e tema da peregrinação uma palavra simples: «Go». Com ela, pretendiam lançar um apelo à ousadia de continuar a caminhar com Francisco de Assis. Era, simultaneamente, um convite à responsabilidade pessoal num mundo marcado por inúmeras propostas e diferentes modos de viver. «Eu vou». Não olho para o lado nem receio confrontar-me com outras propostas ou modelos de vida.
O Papa Leão XIV participou no encontro e deixou uma mensagem que me dispenso de comentar. No final, de forma espontânea, interpelou os jovens a orientarem-se para uma atitude mais comunitária. Hoje, é importante que caminhemos juntos. «Let’s go». «Vamos».
Ter-se-á tratado de uma alternativa ou de uma complementaridade? Penso que o Papa pretendeu alertar para o facto de o caminho não poder ser meramente individual, assente em projetos centrados exclusivamente em cada pessoa. É necessário que seja vivido também numa dimensão comunitária. Não estamos perante realidades opostas, mas complementares. É indispensável uma vontade pessoal e uma decisão consciente de arriscar e avançar. Ao mesmo tempo, porém, o percurso deve ser feito de mãos dadas, articulando a originalidade de cada um com as exigências de uma sinodalidade efetivamente vivida e não apenas professada.
Vivemos numa sociedade marcada por um forte individualismo e por atitudes egocêntricas, em que o interesse pessoal tende a prevalecer, muitas vezes, em detrimento da dimensão comunitária. «Quero viver como quero e como me apraz, sem contar com ninguém.» Percorro o meu caminho sem considerar os outros, que, não raras vezes, acabo por marginalizar ou desconsiderar.
Perante uma sociedade globalizada, multicultural e multiétnica, torna-se imprescindível assumir a responsabilidade pessoal de, sem medo nem complexos, enfrentar a diferença a partir da minha própria originalidade, do meu modo de ser, de viver e de pensar. Os valores são pessoais, mas não devem ser assumidos com receio ou vergonha de os colocar no espaço de encontro com o diferente e, porventura, da conflitualidade.
Um dos grandes problemas da sociedade contemporânea reside precisamente na facilidade com que nos deixamos conduzir por influências exteriores. As redes sociais contribuem, muitas vezes, para enfraquecer a coragem de pensar por si próprio e de percorrer caminhos coerentes. Todos pensam da mesma maneira; eu não vou ser diferente. Mais do que nunca, não nos devemos resignar a ser meras fotocópias, como tão bem afirmava São Carlo Acutis.
Ao mesmo tempo, porém, temos de reconhecer que as forças e correntes que nos rodeiam são de tal ordem que precisamos de interpretar a vida com os outros. Só em conjunto conseguiremos enfrentar os desafios e preservar a nossa identidade. Uma vida isolada, ainda que profundamente fiel a valores irrenunciáveis, será sempre uma pequena luz. É na união das pequenas luzes de cada pessoa que se torna possível vislumbrar algo verdadeiramente diferente, como uma alternativa capaz de iluminar o caminho.
Há alguns meses, o Papa Leão XIV comparava os carismas existentes na Igreja a pequenas estrelas que necessitam de se encontrar para formar uma constelação. Só assim se tornam verdadeiramente visíveis.
Posso afirmar que este é, hoje como no passado, o espírito de Assis. Uma confirmação disso mesmo pode encontrar-se no Testamento de São Francisco de Assis, escrito em 1226, pouco antes da sua morte e, por isso, um texto que importa revisitar nesta celebração do oitavo centenário.
Conhecemos o percurso do jovem Francisco, inicialmente marcado por uma existência centrada em si próprio. Mergulhado na riqueza, ousou viver para si, em busca de prazeres e experiências que julgava capazes de o satisfazer. Com o passar dos anos, porém, reconhece-se perdido no meio da cidade. Tendo as mãos cheias de muitas coisas, procura um novo horizonte. Encontra-o quando se apercebe de que, na sua própria cidade, existia um lugar reservado aos leprosos: pessoas marginalizadas, excluídas e à espera da morte.
Acreditou que, na atenção dedicada a esses descartados, encontraria algo que as riquezas não lhe tinham proporcionado. Inicia, então, uma vida de isolamento e solidão, procurando um encontro com Alguém que o sustentasse numa existência nova. Chegou a acreditar que poderia — e deveria — viver sozinho. Porém, acontece aquilo a que os historiadores chamam uma viragem vocacional: não deveria permanecer sozinho, como eremita. É isso mesmo que escreve no seu Testamento: «O Senhor deu-me irmãos».
Pensou encontrar a felicidade no alheamento do mundo, das pessoas e da sociedade. Deus, porém, colocou no seu caminho não simples indivíduos, mas irmãos com quem deveria iniciar um novo estilo de vida. Olhou para o lado e descobriu companheiros para uma nova caminhada: pessoas que não escolheu, mas que Deus foi colocando no seu caminho.
Francisco alarga, assim, a tenda da sua existência e permite que, poucos anos depois, muitos outros se juntem a ele para viver a pobreza e a doação aos demais. O seu modo de viver, sem deixar de ser profundamente pessoal, adquire uma dimensão comunitária.
Também hoje precisamos da decisão do «GO» — «Vou» —, mas inseparavelmente unida e completada pelo «LET’S GO» — «Vamos».
Não será este um bom apontamento para iniciar um novo ano?
Fica a sugestão.