Uma recente investigação do grupo de reflexão Reset Tech¹ revela que milhares de páginas de Facebook, canais de YouTube e contas de TikTok difundem, em escala industrial, conteúdos políticos polarizadores, frequentemente gerados por inteligência artificial. Ao longo de oito meses, os investigadores mapearam 6.601 contas nas três plataformas, geridas a partir de países como o Paquistão, o Vietname, o Sri Lanka ou o Cazaquistão, com mais de 101 milhões de seguidores acumulados e quatro mil milhões de visualizações. A rede do Sri Lanka, associada a uma "academia" de monetização de conteúdos, visa mais diretamente a França: das 1.864 páginas que compõem esta rede, 392 dirigem-se ao público gaulês, várias delas com mensagens relativas às eleições presidenciais de 2027. Não se trata necessariamente de convicção ideológica, mas de interesse financeiro. Segundo Marc-Antoine Brillant, diretor do serviço público de vigilância das ingerências digitais (Viginum), “está a chegar um tsunami”. Não é por acaso que o próprio Brillant se prepara para deixar o cargo e dirigir uma nova agência de contra-influência criada no seio da Havas, grupo presidido por Yannick Bolloré.
Precisamos de rever a forma como encaramos as fake news. Já não basta perguntarmos “quem” manipula e “porquê”, procurando a ideologia subjacente às estratégias de manipulação. Tal não significa que os atores com agenda política tenham cessado as suas ações de desinformação. A estas juntou-se agora um fenómeno estrutural de polarização lucrativa, alimentado pelos sistemas de incentivo das plataformas: algoritmos, monetização das audiências e banalização da IA generativa. A questão deixou de ser “apenas” geopolítica ou tecnológica e passou a ser também cívica. O que pode o utilizador comum fazer face a um ecossistema configurado para tirar partido das reações mais viscerais? Como preservar a nossa voz sem alimentar esta engrenagem? Para não sermos cúmplices, mesmo que involuntariamente, faz sentido ter em conta princípios elementares que contribuam para manter o espaço público habitável. Sem esgotar o tema, proponho um decálogo para um uso mais humano e responsável das redes sociais:
I. Amarás a verdade sobre todas as coisas.
II. Não invocarás fontes de origem duvidosa em causa própria.
III. Guardarás um tempo de reflexão antes da resposta ou do silêncio.
IV. Honrarás quem apura os factos com rigor e responde pelo que publica.
V. Não assediarás, nem matarás a reputação do próximo em linchamentos digitais.
VI. Não adulterarás palavras, imagens ou vídeos com inteligência artificial.
VII. Não te furtarás à tua identidade, nem darás ouvidos ao anonimato tóxico.
VIII. Não espalharás boatos por maldade, nem rumores por displicência.
IX. Não cobiçarás a fama, nem os seguidores do próximo.
X. Não partilharás sem ler, nem calarás os erros que cometeres.
No fundo, este decálogo resume-se a uma ideia simples. A médio e longo prazo, a verdade e o respeito pelo outro valem bem mais do que qualquer lucro, audiência ou notoriedade. O relatório Monetized Slopaganda mostra que as plataformas têm consciência de que muitas destas contas violam as suas próprias regras e, ainda assim, continuam a monetizá-las, sem transparência. Os investigadores manifestam sérias dúvidas de que Facebook, YouTube e TikTok resolvam a questão de livre e espontânea vontade, sem pressão de reguladores como a Comissão Europeia. Todavia, seja qual for o desfecho, tal não nos exime das nossas responsabilidades individuais. Enquanto não chega a regulação – e mesmo depois – cada partilha, comentário ou segundo de atenção que damos a este tipo de conteúdos polarizadores contribui para alimentar a “besta”. Não se trata de desertar do espaço público, mas de pugnar por torná-lo mais saudável, sem deixar de ser plural.
¹ Reset Tech, Monetized Slopaganda, 9 de setembro de 2026. Disponível em: reset.tech/resources/monetized-slopaganda-research-report