Acerca deste mito (que de novo traz Constantino I [e o séc. IV] à colação, para se apontar para uma presumível cisão na fé cristã sucedida com ele), há uma série de clarificações que devem ser feitas, pois, como com outros mitos anteriores, ele mescla verdades com mentiras.
Desde logo, importa admitir que, embora só depois do séc. III, o crescimento do “movimento ascético cristão” decorrerá, em certa parte, da perceção, mais ou menos correta, de que o Cristianismo assumia alguns valores contrastantes com os seus. Deveras, muitos cristãos não reconhecerão a Igreja “dos mártires” na Igreja “imperial” e, assim, desta se afastarão (deste ou daquele modo, neste ou naquele grau) em procura de uma maior pureza e integridade.
Acontece, porém, que é um erro dizer-se que o incentivo para o surgir de tal aduzido movimento tenha sido essa relativa mundanização (sucedida a partir de meados do séc. IV).
Na verdade, há evidências, já do séc. II, de cristãos que, na senda de Jesus Cristo, começaram a abdicar do Matrimónio e a viver com um mínimo de bens para se dedicarem, mais atentamente, à oração e às obras de caridade. Pode-se referir, por exemplo, textos de Hermas (diversas passagens em “O Pastor”, obra existente ao redor de 150); Justino de Siquém (o capítulo 15 da sua “Primeira Apologia”, redigida a meados da dita centúria); e Atenágoras de Atenas (no capítulo 33 do seu “Apelo em favor dos Cristãos”, escrito por volta de 177).
Dito isto, é no decurso do século III (antes, pois, do “início” institucional propriamente dito do “movimento ascético cristão”, com Pacómio de Tebas, Macário do Egito, Evágrio Pôntico e, entre outros, Basílio de Cesareia) que algo de mais evidente assomou. E esta realidade, notavelmente devido a dois pilares: a) os escritos de Clemente de Alexandria, Cipriano de Cartago e, sobretudo, Orígenes de Alexandria; b) e a figura de António do Deserto.
Devido àquele «sobretudo», diga-se que, apoiando-se numa distinção entre “preceitos” e “conselhos” de Jesus (que o Novo Testamento desconhece), Orígenes advogou, com grande sucesso para o seu futuro, que dentro da Grande Igreja havia duas “classes” de cristãos (veja-se, por exemplo, “Comentário acerca do ‘Evangelho de Mateus’”, 15, 10, de cerca de 247). Uma era a dos «perfeitos», que existiam numa vida «verdadeira» – estes seguiam os indicados “preceitos” e “conselhos”. A outra era a dos «simples», que existiam numa vida tida como «sombra» da «verdadeira» – estoutros seguiam apenas os “preceitos”.
Já a figura de António do Egito (em Portugal conhecido por Antão do Egito), destaca-se por ter sido apresentada como um exemplo arquetípico e paradigmático da vida ascética, seja na importantíssima obra “Ditos dos Padres do Deserto” (compilação, elaborada entre os séculos IV e V, de ensinamentos espirituais), seja, sobretudo, na obra “A Vida de António”, acabada de escrever por Atanásio de Alexandria no ano de 360.
Embora esta última seja menos um relato biográfico do que uma apologia de uma forma de vida, há alguns dados que nos permitem dizer que terá sido com ele, e nos fins do séc. III, que (nas elevações rochosas nos desertos do Norte do Egito) começaram a ser feitas adaptações nas cavernas para se ter células para eremitas. Eremitas que, seguindo António, almejavam a salvação individual mediante, nomeadamente: uma grande simplicidade; sérias restrições alimentares; a continência sexual; e uma oração que se queria o mais contínua possível.