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As mil e uma Benficas TV

Declaração de intenções prévia: não sou benfiquista. Sou, e por esta ordem: patriota, desportista e portista (mero simpatizante).

Significa isto que, quando uma seleção nacional ou um atleta português veste a camisola nacional, representando o país, gritarei a plenos pulmões pela sua vitória, independentemente de, por trás, aqueles atletas virem de diferentes clubes (alguns até estrangeiros). Significa isto também que, quando uma equipa de futebol, andebol, hóquei em patins, futsal, ou outra modalidade qualquer, competir a nível internacional, serei sempre pela equipa portuguesa, independentemente de se chamar Benfica, Sporting, Braga, Torrense ou outra qualquer. E vibrarei pela sua vitória internacional com a mesma intensidade com que vibro por uma vitória do clube do meu coração.

Significa isto também que sou pelo cumprimento das leis do desporto, pelo fair-play, pelo saber ganhar e saber perder. Pela ética e pelos valores que são os pilares do desporto: a excelência (dar o seu melhor), a amizade (usar o desporto como forma de convivência social) e o respeito (por si, pelos outros, pelos regulamentos, pelo ambiente).

Posto isto, pretendo manifestar a minha revolta e incredulidade por aquilo que se tem vindo a manifestar cada vez com maior intensidade e despudor por parte dos nossos mass media, com especial destaque para os canais de televisão lusos. Que a Benfica TV, como canal oficial do SLB (Sport Lisboa e Benfica) só passe imagens do Benfica, só transmita jogos do Benfica, só entreviste atletas, dirigentes, adeptos ou sócios do Benfica, acho justo e compreensível. Só vê a Benfica TV quem for assinante desse canal.

Agora que a esmagadora maioria dos canais de televisão que compõem a nossa grelha nacional, generalistas, especializados em desporto ou de notícias, como a SIC, a TVI, CNN, CMTV, etc. (com exceção do Porto Canal) façam o mesmo, acho intolerável, errado e violador dos mais elementares princípios da igualdade e respeito pela pluralidade desportiva. 

Em Portugal existem mais de 10.000 clubes desportivos (11.684 registados em 2024). mas, se reduzirmos apenas para o futebol profissional masculino nas duas principais ligas, encontramos 36 equipas (34 representando clubes diferentes, já que 2 equipas da Segunda Liga pertencem a clubes da Primeira Liga). Diz-nos a realidade e o nosso conhecimento empírico que a maior parte da população portuguesa gosta de futebol e que, destes, mais de metade será simpatizante do Benfica. Contudo, isto não justifica que os canais televisivos nacionais, na sua diversa programação desportiva reduzam tudo ao SLB. Focando-nos apenas na nossa memória mais recente que envolve o defeso e o início das competições oficiais desta nova época desportiva (2026/27), parece que apenas existe Primeira Liga e que nesta apenas jogam três equipas, sendo que apenas se pode falar de uma delas (Benfica), outra de vez em quando (Sporting) e uma terceira raramente ou nunca (FC Porto). Tudo é Benfica: foi a mudança do anterior treinador (Mourinho para o Real Madrid), foi a contratação do atual (Marco Silva); foram as transferências de jogadores que saíram da Luz (Otamendi, Florentino, Kokçu, António Silva, etc.), foram os que entraram (Lenglet, el Kerouani, Palhinha, Echeverri, Barrenechea, Jhon Durán, etc.) ou os que ficaram (como Schjelderup ou Pavlidis): tudo motivou longas horas, dias, semanas de programas, com os habituais comentadores a dissecar tudo até à exaustão. Segue-se o Sporting a largas milhas de distância em termos de ocupação de espaço televisivo. Mas, depois é o quase total silêncio, ao ponto de, provavelmente, a maior parte dos espetadores mais desatentos desconhecerem quem ganhou o último campeonato nacional de futebol e quem ocupa o primeiro lugar do atual. Já saber quais foram as alterações que o plantel do Sporting de Braga conheceu, ou dos demais clubes, isso é quase impensável e, quando é referido, são meras notas de rodapé.

Para as nossas televisões tudo é Benfica. Só se pode falar do Benfica, porque, parece, só o Benfica vende. Ora isto, não só é redutor e violador das mais elementares regras da liberdade desportiva, como é altamente lesivo para a dignidade e interesses desportivos e económicos dos demais clubes, impedindo seriamente o seu desenvolvimento e melhor conhecimento pela população. E estamos apenas a falar do futebol masculino ao mais alto nível, porque se passarmos para as demais modalidades desportivas, o deseerto informativo ainda é mais notório e só é interrompido quando algum atleta ou equipa nacional fazem um brilharete lá fora.

Mas não existe em Portugal uma Entidade Reguladora da Comunicação Social (ERC), responsável por assegurar direitos (e deveres), a liberdade de imprensa, o pluralismo e a independência da informação? Não é por demais evidente uma subserviência da comunicação social a uma única entidade desportiva nacional e um vergonhoso esquecimento de todos os outros clubes, estruturas desportivas, modalidades e atletas do nosso país?

Fernando Viana

Fernando Viana

19 setembro 2026