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O leitor não nos deve o seu tempo

Publicar tornou-se demasiado fácil para continuar a ser um gesto inocente. Nunca houve tantas palavras disponíveis, tantos lugares onde as depositar, tantas formas de as fazer circular. Mas a multiplicação dos meios não trouxe consigo uma correspondente abundância de atenção. Pelo contrário: quanto mais se publica, mais raro se torna o tempo interior de quem lê. É por isso que escrever para os outros deixou de ser apenas uma questão de expressão, tornou-se uma responsabilidade.

O leitor não nos deve o seu tempo. Não é obrigado a acolher a nossa opinião nem a acompanhar o nosso raciocínio. Quando pega num texto, entrega-nos alguns minutos irrepetíveis da sua vida. Respeitá-lo significa reconhecer o valor dessa dádiva e perguntar, antes de publicar: há aqui alguma coisa que mereça ser recebida?

Nem tudo o que pode ser dito precisa de ser publicado. Há textos que apenas repetem o que já circula, acrescentando ruído ao ruído; outros usam palavras grandiosas para esconder a ausência de pensamento; outros ainda confundem visibilidade com relevância. A linguagem pode impressionar sem iluminar, seduzir sem alimentar, ocupar espaço sem abrir horizonte. Uma frase elegante não resgata uma ideia vazia, como uma convicção enfática não substitui a verdade dos argumentos.

Numa carta dirigida à comunidade de Corinto, Paulo afirma que não se apresentou com «sublimidade de linguagem», mas com fraqueza, temor e tremor. Independentemente da adesão religiosa do leitor, há nesta confissão uma ética da palavra. Falar com autoridade não é falar a partir de uma posição invulnerável. É aceitar que a palavra só se torna credível quando nasce de algo que atravessou a existência, foi provado pela dúvida e assumido com responsabilidade.

Escrever a partir da experiência não significa transformar cada texto num diário íntimo nem elevar a vivência pessoal a critério absoluto. A experiência também engana, estreita e deforma. Precisa de ser interrogada, confrontada e depurada. Mas há uma diferença decisiva entre uma ideia apenas recolhida e uma ideia verdadeiramente habitada. O leitor percebe quando o autor fala de fora, combinando fórmulas disponíveis, e quando arrisca dizer aquilo que aprendeu porque a vida o obrigou a pensar.

Também a convicção pessoal não dispensa o argumento. Pelo contrário, torna-o mais necessário. Quem acredita profundamente numa ideia deve expô-la à possibilidade de ser contestada, corrigida ou mesmo refutada. Caso contrário, não oferece uma convicção: exige uma submissão. Respeitar o leitor é não o tratar como destinatário passivo, mas como consciência livre, capaz de concordar, discordar e continuar o pensamento para além do texto.

Há, portanto, uma ascese própria da escrita. Cortar o supérfluo, esclarecer o obscuro, verificar o que se afirma, resistir à frase fácil, abandonar uma página que nada acrescenta. Rever um texto não é apenas aperfeiçoar o estilo; é retirar ao leitor o peso que pertence ao autor. A clareza dá trabalho porque impede que transfiramos para quem lê a desordem que não quisemos resolver.

Talvez devêssemos publicar menos. Não por desprezo da palavra, mas por respeito por ela. O silêncio não é sempre ausência de pensamento; pode ser o lugar onde o pensamento ganha espessura suficiente para se tornar comunicável. Há palavras que enchem e palavras que esvaziam. Há textos que terminam em si mesmos e textos que devolvem o leitor à sua própria vida com mais lucidez, inquietação ou esperança.

Esse deveria ser o critério: escrever apenas quando temos algo a oferecer que não seja a mera exibição de nós mesmos. Uma experiência transformada em inteligência partilhável; uma convicção que aceitou passar pelo crivo da crítica; uma pergunta que ainda não recebeu atenção suficiente; uma palavra capaz de tornar o mundo, mesmo discretamente, mais legível. Publicar é entrar na casa interior de alguém. Devíamos bater à porta levando alguma coisa nas mãos.

Luís M. Figueiredo Rodrigues

Luís M. Figueiredo Rodrigues

5 setembro 2026