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A Grande Igreja não cria, no Século III, na “Presença Real” na Eucaristia

Já tive a oportunidade de me referir ao mito que menciona que só no séc. III é que a Eucaristia passou a ser entendida como um sacrifício, hipoteticamente devido ao embeber-se da fé cristã nos costumes religiosos pagãos envolventes. O presente mito está assaz ligado a esse outro.

De facto, e também proveniente de horizontes protestantes (e não só), a moldura “justificativa” para o mito abordado neste texto é assaz semelhante à do mito acima referido. Não no sentido de agora também se apontar para uma “importação de crenças pagãs”, mas no de se evocar uma presumível posição teológica da Grande Igreja durante o séc. III. Uma posição que advogava que a Presença de Jesus na Eucaristia era meramente simbólica.

Tanto quanto posso afirmar, nenhum autor do séc. III usa a expressão “Presença Real”, até porque esta tem uma origem pós-medieval. Contudo, ela expressa o que o Novo Testamento e ulteriores autores cristãos já criam e comunicaram de outras formas e mediante vocabulários diferentes (não menos porquanto a admissão de uma realidade precede a definição da terminologia mais exata para a descrever). A saber: que Jesus, na Eucaristia, dá-Se realmente em alimento salvífico, através de meios materiais (o vinho e o pão) transformados n’Ele.

Ora vejamos: acerca do Novo Testamento, basta apontar para os relatos da “Instituição da Eucaristia”, em articulação com Jo. 6,32-71 (constatando-se que ninguém “se afastaria” de Jesus se Este estivesse a falar de uma maneira não-real acerca de Se oferecer em alimento). Depois, por exemplo (e respetivamente no começo, a meio e no fim do século II), Inácio de Antioquia, na “Carta aos Esmirniotas” (7, 1), Justino de Siquém (no capítulo 66 da “Primeira Apologia”) e Ireneu de Lião (“Contra as heresias”, 4, 18, 5) não deixam lugar a dúvidas no que concerne à continuação da crença na “Presença Real” de Jesus na Eucaristia.

Na senda desta convicção crente (e tal como acontecera com o outro mito a que me reportei no começo deste texto), foi inclusive no séc. III que se começou a afirmar, de modo teologicamente mais estruturado e enfático, a “Presença Real” de Jesus na Eucaristia, face a vestígios (antigos e novos) de ideias contrárias às transmitidas pela Tradição da Grande Igreja.

Tertuliano de Cartago, cerca do ano de 210, refere: «na Eucaristia, a nossa carne alimenta-se do corpo e do sangue verdadeiros de Jesus Cristo, que nela [a Eucaristia] está presente, para que também a alma se sacie do Deus verdadeiro» (“Acerca da Ressurreição dos Mortos”, 8). Por volta do ano de 248, Orígenes de Alexandria, nas suas “Homilias acerca do ‘Livro dos Números’ (7, 2), afirma: «antigamente, de forma obscura, Deus ofereceu o maná como alimento; agora, porém, e à vista de todos, Deus oferece-Se como alimento pela verdadeira carne da Palavra de Deus incarnada, que está presente na celebração».

Como vemos, a crença num forte realismo sacramental já estava bastante difundida no século III. Na linha do dito em épocas anteriores, e contra quem negava que Jesus tivera uma carne verdadeira, afirma-se categoricamente que Ele a tivera e que não Se poderia dar na Eucaristia, nem sob um modo distinto daquele em que ascendera (com a plenitude da Sua divindade e da Sua humanidade, esta última transfigurada também a nível do seu suporte material conexo), nem se não estivesse deveras (e não apenas simbolicamente) presente nesse Sacramento.

Alexandre Freire Duarte

Alexandre Freire Duarte

5 setembro 2026