O ritmo comum dos dias, no plano individual como no respeitante aquilo que o planeta Terra exala, é marcado por muitas recorrências. E a tranquilidade funda-se também nisso, agradece as âncoras de estabilidade.
Mas, de quando em vez, manifestam-se ruturas, acelerações bruscas, ora benévolas ora perturbadoras, ou recuperam-se perspetivas valiosas e criativas.
O quadro “Cristo de São João da Cruz” (1951), do pintor espanhol Salvador Dali, peça singular do espólio do Kelvingrove Art Gallery and Museum, na cidade de Glasgow (Escócia), é um notável exemplo de recuperação, e superação, de perspetivas olvidadas. Inspirando-se no esboço de um desenho do século XVI, da autoria do frade S. João da Cruz, também espanhol, e impulsionado por um sonho, segundo o próprio, Dali pintou a cena da crucificação de Cristo de uma forma atípica, sumamente bela e surpreendente, como só um genial pintor conseguiria. Ao contrário das representações tradicionais em que a crucificação de Cristo é construída na perspetiva de alguém que se encontra num plano inferior, neste quadro o observador, como que fosse Deus a ver o seu filho, está num plano superior. Vê-se a cabeça de Cristo, mas não o rosto, não há pregos nem coroa de espinhos, em conformidade com o sonho evocado por Dali. Uma visita à pujante cidade de Glasgow não deveria passar ao lado deste museu/galeria, no qual o quadro de Dali é o polo de atração maior.
Vai já longa, muito longa, a guerra na Ucrânia. Milhares, muitos milhares de mortos consubstanciam o sofrimento de ucranianos e de russos. A Europa, muito justamente como aqui tenho defendido, tem sido um suporte perseverante do esforço de guerra de uma Ucrânia que se tem recusado a reconhecer a amputação do seu território a favor da Rússia invasora.
Curiosamente, o apoio da UE ao lado ucraniano tem agregado a generalidade dos seus países membros (com a consabida exceção da Hungria até há pouco tempo), os quais nos últimos anos têm enfrentado severos desafios comuns (agressividade política e comercial da América de Trump; poderio militar de uma Rússia hostil, e ostracizada pela UE; voracidade competitiva da economia chinesa). Todavia, se num futuro próximo a extrema-direita, nacionalista e tendencialmente russófila, vier a ganhar as eleições presidenciais em França, através de Marine Le Pen, e a chancelaria na Alemanha, via AFD, muito poderá vir a mudar nesta Europa, atenta a importância fulcral destes países.
A UE apresenta já uma vetusta identidade. Nasceu na transição dos séculos XX/XXI, através do Tratado de Maastricht, mas se nos ativermos ao Tratado de Roma (1957), espoletador do percurso para a Europa Unida, contam-se já cerca de setenta anos. Mas não há império que não tenha fenecido, ou sido alvo de significativa reformulação territorial na passagem dos séculos, ainda que alguns depois de muito caminho.
A União Europeia é o império benigno que alguns pensadores e políticos europeus inventaram para que o seu continente desistisse de se estilhaçar, territorial e civilizacionalmente, como vinha a fazer desde há séculos, e como desgraçadamente os mais contemporâneos podiam comprovar através da horrível primeira metade do século XX (duas guerras mundiais que mais não foram, na essência, do que a extensão de duas grandes “guerras civis europeias”).
Menos crente na fiabilidade do seu ainda aliado americano (EUA de Trump) e temerosa do militarismo russo, a Europa tem vindo a rearmar-se, procurando por essa via denotar capacidade dissuasiva, em particular perante a mesma Rússia que arvora repetidamente a singularidade da sua capacidade bélica (empalecida, não obstante, pela resistência ucraniana).
Nos livros escolares de História, ensina-se aos alunos que a Europa na transição dos séculos XIX/XX vivia num clima político de “paz armada”. Depois, é sabido, irrompeu (1914) a 1ª Guerra Mundial. Perante as lições repetidas do passado, não há, pois, senão que inventar novas abordagens, novas perspetivas. Voltando ao quadro de Dali atrás referenciado, seria bom que também no plano internacional surgissem novas perspetivas, indutoras, neste caso, de uma paz que já tarda na Ucrânia – e que as lideranças russa e ucraniana têm, por estes dias, insinuando desejar. A morte pode bem continuar a alastrar as suas sombras no teatro da guerra da Ucrânia, tão rotineira se tornou. Esperemos que não por muito tempo, porém.