A fluência com que se fala aparenta sinalizar agilidade na comunicação.
Acontece que, muitas vezes, tal fluidez deixa entrever um pensamento desarrumado e um descontrolo emocional, que indiciam uma perturbadora imaturidade pessoal.
Daí que, como propugnam algumas correntes, a comunicação careça mais de «slow cooking» (cozedura lenta) do que de «fast food» (comida rápida).
É verdade que mudar o paradigma não é fácil, já que (até nas escolas) se valoriza a resposta «na ponta da língua» como sinal de destreza intelectual. Quem aprecia o aluno que admite precisar de pensar antes de responder?
No fundo, nós não vivemos numa «cultura da comunicação», mas numa «cultura da pressa». Tudo tem de ser verbalizado no momento, o que perturba a ponderação e faz crescer a irritabilidade.
Esquecemos que – como notou Gandhi – «o homem de poucas palavras pondera cada palavra». Parece que o silêncio é um entrave, um indicador de ausência, um sintoma de inaptidão.
E, no entanto, «o silêncio é a oração dos sábios» (Augusto Cury) e «um dos argumentos mais difíceis de refutar» (Josh Billings).
Ele evita querelas inúteis em que os interlocutores não se escutam, apenas se sobrepõem e neutralizam.
O silêncio constrói, não debitando lugares-comuns. E, coisa absolutamente necessária, higieniza o relacionamento humano.
O silêncio dá espaço ao outro, acolhe o outro, permite conhecer o outro e até possibilita que o outro se conheça melhor a si mesmo.
Quando não há silêncio na comunicação, as palavras atropelam-se e o tom conta mais que o conteúdo e a sensibilidade. Longe do silêncio, as palavras chegam a irromper como punhais arremessados em impulsos de fúria.
O silêncio «reifica» a comunicação, dispensa atenção e oferece compreensão. A pessoa silenciosamente atenta e compreensiva fixa-se no outro, não manuseia o telemóvel nem dirige o olhar para o vazio.
Não é só vocalmente que comunicamos, pelo que o silêncio também transporta uma linguagem e carrega uma mensagem. Emite mais respeito e empatia do que possamos imaginar.
Em momentos de tensão, o silêncio consegue reprogramar discussões para quando despontar um registo mais cordial e apaziguador.
Impõe-se, por isso, alterar o padrão. Porque é que ficamos intrigados quando alguém não diz nada, inquirindo logo: «O que se passa»?
Quem se espanta por alguém falar? Passe a ironia, parece que só o antigo rei espanhol teve o arrojo de confrontar um já falecido – e loquaz – estadista: «Por qué no te callas»?
É pena que os silenciosos sejam vistos como inábeis, quase como inexistentes.
É pena que o silêncio não seja valorizado como fornecedor de acalmia e oportunidade, para que cada um se expresse com mais tranquilidade e liberdade.
Não menorizemos a eloquência do silêncio.
Ele ajuda a organizar o pensamento, a controlar as emoções e a ajustar as palavras à pessoa que temos à nossa frente e ao entorno em que nos encontramos. Em conclusão: «Quer comunicar melhor? Faça mais silêncio»!