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O eclipse dos rituais

Quarta-feira, 12 de agosto, entre 18h33 e 20h23, Portugal acompanhou um eclipse solar total. Em território nacional, o último ocorreu em 1912 e o próximo terá lugar apenas em 2144. Durante 26 segundos, a Lua colocou-se entre o Sol e a Terra, transformando o dia em noite. Na realidade, apenas quem estava numa faixa estreita do território, entre as aldeias de Rio de Onor e Guadramil, no Parque Natural de Montesinho, ficou mesmo às escuras. No resto do país, cobriu-se entre 92% e 99% do disco solar. Dias a fio, a comunicação social preparou-nos para o fenómeno: recomendações de segurança, intervenções de especialistas, mapas interativos, iniciativas locais, procura de óculos certificados, esgotamento de alojamento local, sessões de esclarecimento, limitação de acesso em zonas de risco de incêndio, previsões meteorológicas, comparações com 1912 e por aí adiante. As redações noticiaram o evento ao minuto: em direto de Bragança, do Palácio de Belém e das margens do Tejo, das capitais de distrito, do santuário de Fátima e do festival de Paredes de Coura, do arquipélago dos Açores, de planetários e observatórios, de miradouros e esplanadas de aquém e além-Douro.

Gente reunida a olhar para o mesmo ponto do céu, o quotidiano suspenso por uns instantes, uma pitada de efervescência, um conjunto de posturas prescritas, um "nós" partilhado... Embora lhe faltem algumas das suas características, a cena esboça a gramática dos rituais coletivos. Um ritual não se circunscreve à superstição, nem à expressão espontânea de emoções. É uma ação simbólica estruturada, com papéis e gestos codificados, que separa um tempo sagrado de outro profano e reforça os laços e as crenças do grupo. Para Durkheim (As formas elementares da vida religiosa, 1912), consolida a ordem social; para Turner (O processo ritual: estrutura e antiestrutura, 1969), transforma-a. O ritual estrutura-se em três fases: a separação do quotidiano, a suspensão entre dois mundos (liminaridade) e a reintegração na ordem social, com um estatuto renovado. É o que ocorre numa cerimónia de graduação, de casamento, de funeral ou de conversão, espaços em que o coletivo se faz corpo e o indivíduo se transforma.

Foi precisamente o que o antropólogo Dimitris Xygalatas (Ritual: como ações aparentemente sem sentido nos fazem humanos, 2022) procurou medir em San Pedro Manrique, pequena aldeia da província espanhola de Soria, onde todos os anos, no solstício de verão, homens e mulheres caminham descalços sobre brasas a 677°C. Graças a sensores de frequência cardíaca colocados em participantes e espectadores, o antropólogo descobriu que os corações de quem andava sobre as brasas e de quem assistia ao ritual batiam quase em uníssono. Todavia, a sincronia concentrava-se entre caminhantes e espectadores locais, estando quase ausente de turistas de passagem. É a confirmação biológica de que a efervescência coletiva não é uma metáfora, mas uma sincronia real, mensurável, que liga os corpos consoante os laços de pertença.

A comunidade pode encarnar no interior de um templo, numa cerimónia comemorativa, num estádio, num concerto, numa vigília de protesto, numa manifestação popular, numa peregrinação, numa passagem de ano ou numa noite de eleições. Essa energia gera solidariedade e cuidado mútuo, mas também pode suscitar conflito. Tanto une, como exclui. Quando televisionados, certos rituais tornam-se aquilo a que Dayan e Katz (Media events: the live broadcasting of history, 1992) denominaram media events: cerimónias transmitidas em direto que interrompem o fluxo quotidiano e congregam uma audiência nacional ou planetária em torno de um momento significativo. Tais acontecimentos mediáticos reúnem uma comunidade sem corpo, em torno de um ecrã comum – por isso são rituais – ainda que à distância. O mesmo já não acontece na era dos smartphones.

O ritual é constituído por ações simbólicas, sem utilidade prática, mas que transmitem valores e uma ordem comuns. O termo grego symbolon deriva de symballein que significa juntar. Os romanos chamavam-lhe tessera hospitalis, materializada numa tábua partida em dois que os anfitriões guardavam como sinal de aliança. O reencontro das duas metades traduzia o reconhecimento. O símbolo não informava apenas, ligava de novo. O digital tende a afogar os símbolos. O gesto ritual tinha uma certa duração. O ecrã atualiza-se a cada segundo. O símbolo repetia o que era familiar. A notificação alimenta-se da novidade. Lembra-nos o filósofo Byung-Chul Han (Do desaparecimento dos rituais, 2019) que nunca tivemos tantas conexões como hoje, nem tão poucas relações. Essa proporção invertida esvazia o ritual. O símbolo não desapareceu. Só não tem tempo nem silêncio para acontecer. Uma era de «comunicação sem comunidade» e de narcisismo coletivo que experienciamos sob o céu de agosto. De olhos postos no horizonte, cada um viveu o momento à sua maneira, mas para muitos o que importava não era tanto ver em comunidade, mas ser visto. O eclipse foi eclipsado pelo Eu.

Manuel Antunes da Cunha

Manuel Antunes da Cunha

15 agosto 2026