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Memórias de uma infância feliz

Quando era mais novo, da idade do Zezinho, mais coisa menos coisa, costumava nesta altura do ano, em Ponte de Lima, refugiar-me lá de cima, no quarto, e escrever! Escrevia muitas coisas bonitas a divas que na altura enchiam o meu coração!

Hoje, aqui na mesma casa, agora no “museu” a ouvir as mesmas músicas dessa época, resolvi voltar a escrever. Agora, não para as musas mas para aqueles a quem o coração nunca deixou de palpitar: para vós, pai e mãe!

“Ai que saudades que eu tenho!”, é a música que agora passa! E eu que saudades tenho dos meus 12 anos!

Esses anos em que todos nós, nesta casa, que é a nossa casa, aqui passávamos as nossas férias tranquilamente, de julho a setembro, sem azáfamas nem stresses, com “todo o tempo do mundo”, a ir buscar o “pão de Fontão” ao Sr. Manuel “Nurata” ou a ir à mercearia do Sr. João Manuel buscar tudo aquilo que fazia falta, fosse o arroz, a pimenta ou o café, moído na hora!

O tempo passava-se a ouvir a Rádio Comercial, a ler algum livro do Eça, do Júlio Dinis ou do Camilo, a limpar os canteiros do jardim, cheios de roseiras e geometricamente desenhados com bucho! Ao fim da tarde era hora de regar.

E também as tarefas de dentro da casa, o limpar o pó aos móveis ou do chão, o “puxar” da enceradeira ou o fazer as camas. A mim sempre me coube as compras, encontrar o que faltava em qualquer uma das mercearias da vila, chegar a casa sempre com que estava em falta. Ainda hoje, passados tantos anos, me cabe essa tarefa!!!

Sim, porque as bicicletas… essas era só para o primeiro dia! Dia em que, cheios de entusiasmo íamos ao “Lau” das bicicletas, junto da Torre Velha, concertar algum pneu furado ou travão rebentado. De seguida, mesmo logo de seguida, esse pneu voltava a furar e o travão, desgraçadamente, também rebentava. As bicicletas voltavam então para o canto de onde tinham saído, para regressarem à rua apenas no ano seguinte!

Os dias iam passando vagaroso. Também dava para, de vez em quando, olhar pela janela onde os olhos se cruzavam com os de alguma vizinha que, tal como nós, ia ver o que que se passava na rua. Mas, quando na rua nos cruzávamos uns pelos outros, parecia que ninguém se conhecia! E o engraçado é que, passados mais de quarenta anos, tudo continua na mesma!

Íamos à Havaneza tomar o café. Todos de volta da mesma mesa, a ler o “Comércio do Porto” ou o “Primeiro de Janeiro”, o “Diário do Minho” e, aos sábados, o “Expresso”. Com tanta leitura não sei como demos tão pouco!

E ainda havia tempo para ir até à capelinha, onde sempre cuidavas de colocar as flores mais bonitas do jardim, e tocávamos naquele minúsculo órgão uns sons muito mal arranhados à Senhora das Neves, padroeira da nossa casa! Quem não gostava nada desses sons acústicos era o Bardo que, quando me punha a tocar bandolim, uivava como se lobo fosse!

A praia fazia também parte desta nossa rotina: Enfiados os sete no carocha – onde chegaram a caber catorze! – bem cedo partíamos para Carreço, Afife ou Caminha, com farnel completo, mesa, cadeiras, toalhas e o inevitável creme da lata azul da “Nivea”.

Lá íamos ter com as tias, os primos e alguns amigos (estou a lembrar-me do Inspetor Evangelista ou das irmãs do tio Carvalho). Naquelas praias de Viana e as suas nortadas apenas nas “barracas” ou junto a um corta-vento se conseguia estar.

Aqui estava, está e estará também aquele que é o nosso Anjo da Guarda e que todos os dias nos acompanha... “Não usa armas, não usa a força ... usa uma luz com que ilumina a nossa vida”.

Assim passávamos as nossas férias de verão, que apenas acabavam com as “Feiras Novas”, já no fim de setembro.

Obrigado pai e mãe!

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José Barbosa

13 agosto 2026