1.Tenho ouvido falar – não muitas vezes, é certo – em ética republicana. Que é isso?
Considero a ética um conjunto de princípios, de normas e de valores que por todos devem ser observados e sem o que não poderá haver uma sã convivência.
Prefiro falar simplesmente de ética, sem quaisquer qualificativos, que deve ser respeitada por todos e em todas as circunstâncias, sejam republicanos ou não; crentes ou agnósticos.
2.Não se agirá eticamente se não se atuar com seriedade, e a seriedade é uma das coisas de que, em minha opinião, muito carece a sociedade atual.
Quem ocupa lugares de responsabilidade há de saber dar, com a forma como age, testemunho de seriedade e de honestidade.
Mandar não é ter o direito de passar por cima de tudo e de todos e de ignorar as regras de jogo previamente estabelecidas. Que se não atropele a ética a coberto da rapidez ou da eficácia.
Isto pressupõe, como é evidente, que para tais lugares se escolham pessoas sérias. Sadiamente escrupulosas, direi mesmo. Sem indivíduos sérios como pode haver seriedade?
3.A seriedade deve estar em toda a parte. Quando, por exemplo, se decide do estado de vida. Quando se resolve casar ou ficar solteiro. Quando se resolve casar com determinada pessoa. Quando se decide ser pai ou ser mãe.
É preciso seriedade nos meios de trabalho, quer se trate de empregados quer de empregadores. A seriedade passa pela forma como as pessoas se tratam umas às outras, pelas condições e pelo ambiente de trabalho, pelo modo como o trabalho é efetuado.
É preciso seriedade no mundo dos negócios, onde a regra de ouro deve ser a de não fazer aos outros o que não queremos que nos façam a nós.
4.É preciso seriedade na gestão dos dinheiros públicos, adotando uma criteriosa escala de valores e de prioridades e colocando sempre o bem comum acima dos interesses individuais ou partidários.
É preciso seriedade na política. Na forma como se governa e como se faz oposição. Na forma como se debatem documentos importantes para a vida da comunidade, o que pressupõe que, antes de se defenderem ou atacarem, sejam devidamente estudados.
5.É preciso seriedade na forma como se mobilizam os cidadãos para que se manifestem publicamente a favor ou contra determinada causa. Que primeiro haja a preocupação de os informar devidamente. Que se contribua para que cada um forme bem a própria consciência e atue de harmonia com ela.
A seriedade exige que se obedeça mais à própria consciência bem formada do que à disciplina partidária.
E que mobilizar não seja sinónimo de arrebanhar, já que os cidadãos devem ser tratados como pessoas e não como carneiros.
6.A seriedade exige que se não faça pela calada, através de jogadas de bastidores, o que deveria ser realizado com a maior transparência. Que não haja medo de promover concursos públicos, com regras que sejam do conhecimento público, para escolher os indivíduos que vão servir a comunidade. Que se selecionem os melhores: os mais competentes, os mais conscientes, os mais dedicados, mesmo que não sejam do nosso partido ou até não tenham partido nenhum.
7.A seriedade exige que se não tenham dois pesos e duas medidas. Que se não mude de critério ou de bitola segundo as conveniências. Que se reconheça o bem que os outros fazem e o mérito dos que não integram o nosso clube de amigos.
Numa época em que tanto se constrói, a seriedade exige, por exemplo, que os loteamentos obedeçam a regras que sejam as mesmas para todos e se não convertam numa forma de enriquecer desonestamente.
8.A prática da seriedade principia na família e na escola, com o testemunho de vida e a exigência de que tudo se faça bem feito.
Que a seriedade comece por se mostrar na forma como se fazem pequenas tarefas doméstica, como se arrumam as próprias coisas, como se fazem os deveres escolares.