Estamos, mais uma vez, ante um mito em que, se fazendo uma afirmação grandemente errónea acerca de um Século (o quarto da Era Cristã) que se pretende traçar como “o cadinho do Cristianismo”, a tal afirmação se associa uma clara falsidade. Semelhantes ao presente mito, há “legiões” deles que poderiam ser apresentados, seja acerca da centúria que está a ter a nossa atenção (201-300), seja das subsequentes.
Por motivos de clareza, vou dividir o mito que será abordado neste texto em duas partes: uma, muito sumária, acerca da proibição do Paganismo no Século IV, e, depois, outra, sobre quando o Cristianismo passou a viver a convicção da “intercessão dos santos”.
Acerca da primeira secção deste texto, diga-se que não se pode negar que no séc. IV houve medidas (sobretudo de Constantino I [272-316-337] e, sobretudo, Teodósio I [347-379-395]) que limitaram a realização pública de práticas pagãs, mas sem limitarem as convicções pessoais dos indivíduos, a ponto de o Paganismo no Império Romano – e é acerca deste contexto que estou a falar – ter subsistido durante séculos.
A respeito da segunda asserção, seja dito que a evolução, dentro da Tradição, da Teologia, da Liturgia, da Piedade Popular, etc. não equivale a uma corrupção pagã, mas a algo natural em todas as culturas e, dentro destas, religiões que se pretendem fazer inteligíveis dentro dos variáveis contextos circundantes. Se a Grande Igreja, à semelhança do já previamente realizado pelo Judaísmo, importou aspetos secundários das religiões circundantes (quando os mesmos, no que tinham de verdadeiro fruto do Logos, iam perdendo o seu relevo), foi-lhes sempre dando uma razão, uma aceção e uma meta especificamente cristãs.
No que diz respeito à “intercessão dos santos”, é certo que houve religiões pagãs que tiveram práticas análogas (sobretudo as que se focavam no culto de “heróis”, dos “imperadores [juridicamente] divinizados” e dos “familiares falecidos”). Mas as diferenças são evidentes: enquanto em tais religiões os seus crentes se dirigiam àqueles como sendo os mesmos capazes de uma ação autónoma e direta, no Cristianismo os “santos” (isto é, aqueles que estão mais vivíssimos do que nunca em Deus) só são intermediários junto de Deus, que, depois, poderia outorgar (ou não), através de tais intercessores ou diretamente, aquilo que a Si fora pedido.
Na vida cristã, esta referida prática surgiu naturalmente e progressivamente a partir de evidências bíblicas de “santos” a intercederem pelos fiéis (conferir, por exemplo, Ap. 5, 8; 6, 9s; 7, 14) que desaguaram na homenagem prestada aos mártires cristãos (que foram aumentando exponencialmente no séc. III) e a Maria. Acerca dos primeiros, temos evidência disso em inscrições dessa centúria nas catacumbas de Roma; e acerca da mãe de Jesus, já é bem conhecida a prece “Sub tuum praesidium” (que surge a meados do mencionado Século).
Há, ainda, uma frase exemplar de Orígenes de Alexandria no número 11 do seu texto, escrito em 233, “Sobre a Oração”: «mas não é só o sumo sacerdote [Jesus Cristo] que ora por aqueles que rezam com sinceridade, mas também os anjos... assim como as almas dos santos que já adormeceram». Em suma: não é no séc. IV que surge a “intercessão dos santos” como “importação” de práticas pagãs entretanto proibidas. O séc. III é rico em provas em contrário.