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Antes da culpa, a bondade

Há uma deformação subtil do cristianismo que começa quando se fala do mal antes de falar do dom. A existência passa então a ser narrada a partir da dívida, da falta e da suspeita. O crente aprende que deve vigiar-se, corrigir-se e provar continuamente que merece permanecer diante de Deus. A fé, em vez de abrir um espaço de liberdade, transforma-se numa contabilidade moral; e Deus, em vez de ser reconhecido como fonte de vida, aparece como instância de controlo.

A narrativa bíblica começa, porém, noutro lugar. Antes da queda, há criação. Antes da acusação, há bênção. Antes de qualquer resposta humana, há uma palavra que faz existir e reconhece a bondade do que existe: «Deus viu que era muito bom» (Gn, 1,10). O mal é real, fere e desfigura; seria ingénuo negá-lo ou minimizar as suas consequências. Mas não pertence à origem. Não é a matéria de que somos feitos, nem a verdade mais profunda da pessoa e do mundo. A bondade é mais antiga do que o pecado.

Esta precedência não é um pormenor teológico. Muda o modo de compreender Deus, a pessoa e a própria missão da Igreja. Se tudo começa pela graça, ninguém entra na vida como intruso nem comparece diante de Deus como devedor insolvente. Existir é já ter sido recebido. A dignidade não é prémio de bom comportamento, nem a pertença cristã uma recompensa reservada aos irrepreensíveis. A graça não coroa os vencedores, levanta quem já não consegue justificar-se.

Também na experiência humana a graça nos precede. Vivemos porque alguém nos acolheu, alimentou, ensinou, escutou, curou ou simplesmente permaneceu ao nosso lado quando nada tínhamos para oferecer. A sociedade inteira depende de gestos que não cabem na lógica estrita da troca: o cuidado familiar, o voluntariado, a dádiva de sangue, o trabalho bem feito, a amizade que não apresenta fatura. Antes de ser uma palavra religiosa, a graça é o nome dessa realidade recebida que torna a vida habitável.

Durante demasiado tempo, algumas linguagens cristãs fizeram da culpa o principal instrumento pedagógico. Supôs-se que a ameaça produziria conversão, que o medo garantiria fidelidade e que a severidade protegeria a verdade. Pode, de facto, produzir obediência exterior. Mas dificilmente gera filhos livres. Uma fé alimentada sobretudo pelo receio torna-se vulnerável ao escrúpulo, ao ressentimento e à hipocrisia: aprende-se a esconder a fragilidade, não a deixá-la transformar.

Dizer que a bondade é primeira não significa proclamar uma inocência ingénua nem dispensar a responsabilidade. Pelo contrário, torna-a mais exigente. O pecado só pode ser reconhecido como pecado porque existe, antes dele, uma vocação ao bem. A ferida dói porque o corpo foi feito para a inteireza; a mentira destrói porque a palavra nasceu para a verdade; a injustiça revolta porque cada pessoa possui uma dignidade que não lhe foi concedida pelo mérito nem pode ser anulada pelo fracasso. A graça não apaga as consequências do mal, impede que elas se tornem destino absoluto.

Também a Igreja precisa de se deixar julgar por esta precedência. Quando recebe as pessoas apenas depois de verificar a sua conformidade, contradiz o Evangelho que anuncia. Quando transforma os sacramentos em prémios, a moral em fronteira e a comunidade em tribunal, obscurece o rosto de Deus. Uma Igreja da graça não abdica da verdade, mas oferece-a sem coerção: como hospitalidade, cuidado, beleza e acompanhamento.

Talvez o anúncio cristão de hoje deva começar por uma frase simples: não és um erro tolerado por Deus, mas uma vida querida, chamada e sustentada. Depois virão a conversão, a exigência e o caminho. Mas virão como resposta a um amor anterior, não como preço para o comprar. O cristianismo começa verdadeiramente quando alguém descobre que, antes de procurar Deus, já era procurado por Ele; e que, antes da culpa, estava a bondade.

Luís M. Figueiredo Rodrigues

Luís M. Figueiredo Rodrigues

1 agosto 2026