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Uma boa esfregadela

No Domingo passado, quem acompanhou o texto do Evangelho, voltou a ouvir a parábola do trigo e do joio. Nesse enquadramento, escutei a expressão que escolhi para título como estratégia para distinguir o cereal da erva daninha. O recurso à IA confirmou-me a solução.

Popularmente falando, todos já ouvimos, com toda a certeza, o conselho para separar o trigo do joio. Sabemos o que significa a expressão, só que nem sempre nos damos conta que deixamos de fazer com grande facilidade esse exercício correctamente e ainda com mais frequência procuramos eliminar liminarmente o que achamos que não presta, que é mau e inútil, acabando por não medirmos as consequências. Na vida, é importante que saibamos operacionalizar bem essa tarefa de separar o que faz mal, a nós e aos outros, do que é bom para cada um e para o todo da sociedade.

O bom e o mau podem conviver juntos durante um tempo, não é fácil distingui-los quando os argumentos são fortes de um lado e de outro. É preciso, muitas vezes, usar de inteligência e sabedoria para saber onde está a razão, qual o caminho certo, já para não falar das sementes que deram origem à parábola e que têm de ser separadas a determinada altura pelo agricultor. Estou a sugerir, e é por aí que vou encaminhar esta crónica, que se aplique a parábola bíblica às decisões que precisamos de tomar no nosso quotidiano.

Não raro, decidimos pelas primeiras impressões, rotulamos pelo que pensamos ser as intenções de alguém, de acordo com os nossos códigos ideológicos ou dos relacionamentos que mantivemos ou mantemos com um indivíduo, um partido político, uma determinada crença. O tempo tem aqui uma grande importância e a paciência é a virtude crítica no processo de discernimento sobre a compreensão do que é trigo e do que é joio. Assim apresentado, parece tudo isto muito simples, mas não é. Frequentemente, temos que decidir sobre muitas coisas e nem sempre com tempo bastante e sem possibilidade prática de uso daquela virtude. Por isso, erramos muitas vezes. Nesse caso, se quisermos ser consequentes, não devemos esconder isso, sacudindo a água do capote ou tentando alguma habilidade para não se falar mais no assunto, mas admitir as falhas. Há decisões, contudo, que podem e devem merecer a oportunidade para serem amadurecidas, seja por que são estruturais para o futuro pessoal, seja por poderem condicionar os que nos rodeiam, até o país, para não falar de uma maior abrangência territorial.

Chegado aqui, introduzo o assunto que esteve em efervescência na semana passada: o novo e estrutural processo de avaliação de alunos implementado pela actual equipa liderada pelo Professor Fernando Alexandre. A primeira tentação é criticar de alto a baixo os atrasos na publicação dos resultados. E se houver motivações políticas, pedir a demissão do ministro da Educação e colocar em causa até a estrutura governativa. Há fome e sede de poder e há razões que a razão não pode aceitar. O atraso foi, na verdade, de pouquíssimos dias que não põe em causa nada de muito significativo e se puser não estou a ver o ministro a ser tão torrão que não vá acertar os prazos que ficam a jusante. Trata-se, na verdade, de uma reforma estruturante de elevada importância para o sistema educativo, ainda que as associações sindicais, mais do que os professores, verbalizem algo muito redondo para não se pronunciarem seriamente. Não tenho escrito as palavras trigo e joio nas últimas linhas, mas elas têm estado implícitas na minha oratória. Nem tudo esteve mal – o ministro admitiu que houve muitas falhas – e atrevo-me a dizer que grande parte do que foi feito teve nota distintiva. Correram-se riscos, é verdade, mas houve um altíssimo salto qualitativo para o futuro. À frente, quando as coisas estiverem estabilizadas politicamente, alguém há-de alterar geneticamente o joio para não ser detectado, mas uma boa esfregadela ajudar-nos-á a separar o trigo do joio. Se se esfregar um e outro, no primeiro caso ficamos com o grão limpo, no outro com um pó que é tóxico.

Luís Martins

Luís Martins

21 julho 2026