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Por Entre Linhas e Ideias

Será mesmo verdade que as tristezas não pagam dívidas? Diz o povo que não, e talvez tenha razão. Foi nisso que pensei ao ver cair, quase em sequência, Cabo Verde, Brasil e Portugal, três seleções de países de língua portuguesa que nos lembraram que perder também pode ser uma forma séria de aprender. A tristeza aparece quando esperamos muito de uma equipa, mas ela não muda o resultado, não corrige os erros, nem faz o jogo voltar atrás. Depois do apito final, todos sabemos mais qualquer coisa, pois o comentador sabe o que devia ter sido feito, o adepto muda a equipa toda, o vizinho jura que já tinha avisado e nós, no sofá, sentimos que faltou qualquer coisa que podia ter mudado o jogo.
Cabo Verde perdeu, mas não saiu diminuído, porque há derrotas que trazem dentro delas uma dignidade que o resultado não consegue apagar. Um país pequeno no mapa fez-se enorme na atitude, jogou olhos nos olhos, correu, acreditou e deixou uma marca que vale mais do que muitos discursos. Lembro aqui Vozinha, o guarda-redes cabo-verdiano, quando disse que seriam exemplo para as gerações vindouras, numa frase simples que resume bem o que ali aconteceu. Cabo Verde talvez não tenha seguido em frente, mas mostrou que representar um povo pode ser maior do que ganhar um jogo.
O Brasil também caiu, e quando o Brasil perde nunca perde apenas uma seleção, porque se mexe connosco uma ideia antiga do futebol, a memória das fintas, da bola tratada com arte e da camisola amarela que parecia sempre capaz de inventar uma resposta para o problema. Mas o passado, por mais bonito que seja, não joga sozinho. As cinco estrelas fazem parte de uma história que ninguém apaga, mas dentro do campo é preciso correr, decidir e perceber que a tradição só ajuda quando encontra no presente jogadores que mantenham viva essa arte.
É aqui que a ideia grega de kairos nos ajuda, porque há um momento certo para agir e ele nem sempre espera por nós. No futebol, como na vida, podemos explicar tudo depois, mas certas derrotas doem porque sentimos que houve uma ocasião em que tudo podia ter sido diferente.
Caros leitores, Portugal custou-nos mais, e custou-me também, não porque tivéssemos o direito de ganhar, que isso no futebol é sempre má conversa, mas porque olhávamos para aquela equipa e parecia haver ali caminho. Havia jogadores, havia bola, havia razões para acreditar. Faltou talvez um rasgo, alguém que pegasse no jogo e dissesse com os pés que ainda não era tempo de ir embora. E quando falo de Portugal, falo também de Cristiano Ronaldo, goste-se mais ou menos dele, porque um homem que durante tantos anos levou o nome do país pelo mundo merece o nosso respeito. 
Albert Camus, que também conheceu o lugar solitário de um guarda-redes, dizia que muito do que aprendeu sobre moral e dever veio do futebol, e talvez por isso este jogo nos toque tanto, porque nele se vê a coragem, o erro, a euforia mas também a derrota. Cabo Verde tem uma derrota que pode ser semente, o Brasil tem de não viver apenas da memória da sua grandeza e Portugal tem de transformar talento em decisão. E nós, que sofremos de fora, também temos de aprender a perder sem insultar tudo, sem achar que sabemos tudo e sem esquecer que, no fim, é apenas futebol.
As tristezas não pagam dívidas, é verdade, e também não devem ficar tempo demais dentro de nós. O futebol mexe connosco, traz sonhos, bandeiras, memórias e esperanças, mas continua a ser jogo. Dói perder, claro que dói, mas a vida segue, e talvez seja isso que tantas vezes nos esquecemos no calor da derrota. Depois do apito final, voltamos ao real, aos nossos dias, às nossas pessoas, ao trabalho, à família e ao que verdadeiramente nos sustenta.
E talvez seja essa a pergunta que fica depois do jogo acabar e do sonho cair:

- Não é ao real de todos os dias que temos sempre de voltar?
 

Eugénio Oliveira

Eugénio Oliveira

8 julho 2026