Era um mestre muito apreciado que, todas as semenas, enchia a sala. Um dia, perguntou: «Quantos de vós já me ouviram falar? Levantem as mãos».
Todos ergueram entusiasticamente as mãos. «Bom – depreendeu o mestre – se todos já me ouviram, não vale a pena ouvir-me outra vez». Saiu e foi para casa.
Na semana seguinte, a sala voltou a encher e o mestre insistiu: «Quantos de vós já me ouviram falar? Levantem as mãos».
Lembrando-se do que acontecera, todos ficaram calados e imobilizados. «Pronto – atalhou o mestre – , se nunca me ouviram falar, não vão compreender o que tenho para dizer». Levantou-se e foi para casa.
Na terceira semana, o mesmo cenário e a mesma pergunta: «Quantos de vós já me ouviram falar? Levantem as mãos».
Metade do grupo levantou as mãos e a outra metade não. «Nesse caso – propôs o mestre –, peço aos que levantaram as mãos que reproduzam aos outros aquilo que eu já aqui disse». E foi para casa.
As palavras precisam de pausas. Quanto mais a língua se move, tanto mais os ouvidos desligam. A banalização arrisca-se a aniquilar a comunicação.
As palavras são a extensão temporal do silêncio da eternidade. Devem, por isso, nascer do silêncio e ao silêncio reconduzir.
As palavras improvisadas facilmente se tornam intermináveis e frívolas. Preenchem o tempo, mas não enchem a alma.
Cada palavra que sai dos lábios necessita de horas de reflexão e contemplação. Só desse modo poderá invadir o coração, despertando nele o desejo de também imergir na contemplação e na reflexão.
O discurso que provoca debates e inflama multidões será o mais salutar?
Pode, sem dúvida, cumprir determinados objetivos, mantendo diversos temas na agenda e servindo de sustentação a protagonismos indisfarçáveis.
As homilias mais aplaudidas serão as melhores? Podem arrebatar os ambientes, mas bastarão para transformar a vida?
As melhores homilias são as que desaguam no silêncio da meditação e excitam à conversão.
As melhores homilias são as que procuram ser ressonância. São as que trazem para «este tempo» o que foi proferido «naquele tempo».
As melhores homilias não são peças de oratória, mas a resultante de prolongados exercícios de escutatória. São aquelas que não se esquecem de transmitir o que Ele nos mandou (cf. Mt 28, 20).
A estrutura da celebração expende uma calibragem harmoniosa entre palavra e silêncio. Ambos interagem em fecunda serenidade, de que os cânticos são cristalina expressão.
Uma demasia de cânticos com excessiva exuberância não favorece o recolhimento. E, no limite, «atreve-se» a disputar a primazia que só a Deus é devida.
Não se está no coro como num palco para um concerto. As mais vibrantes composições de música sacra emanam de pessoas que fazem germinar em pauta o que acolhem no íntimo orante.
Palavras bastam as da liturgia. Fecundemo-las na docilidade do silêncio. E procuremos saboreá-las numa mudança pacificante da vida!